Dívidas se acumulam em várias entidades

Funcionários têm salários atrasados e há pais que não foram informados dos problemas

PAULO SALDAÑA, O Estado de S.Paulo

27 Março 2012 | 07h39

Localizado em um imóvel no bairro da Pedra Branca, zona norte de São Paulo, a Associação de Olho no Futuro atende 150 crianças pobres e em situação de vulnerabilidade. São jovens que moram nas favelas do entorno e têm na entidade uma oportunidade de ficarem longe da criminalidade. O atendimento continua normal, mesmo sem o dinheiro ter sido pago.

A entidade tem, por convênio com a Secretaria de Assistências e Desenvolvimento Social (Smads), R$ 30 mil a receber. Já são dois meses de inadimplência e inúmeras explicações evasivas de representantes da Prefeitura.

"A gente não tem nada a ver com os problemas burocráticos da Prefeitura. Precisamos pagar os funcionários e os gastos com o atendimento às crianças", afirma Emerson Olho, de 41 anos, presidente da entidade.

Olho explica que as crianças passam o dia na instituição, realizam atividades educacionais, culturais e esportivas. Também se alimentam por lá. "No fim de semana, fui buscar uma doação de carne de um colaborador. Sem isso, não conseguiria manter o serviço", diz ele. "Também tive de pedir dinheiro emprestado no banco e me endividar."

A associação de Emerson existe desde 2006 e há três anos é conveniada da Prefeitura. Os pagamentos são feitos sempre um mês após a prestação de serviço - no caso, deveriam ter sido depositados os valores até 20 de fevereiro e 20 de março. Por causa disso, salários de funcionários foram pagos com atraso.

Dobrado. A situação é parecida com a que vive Walter Andrade Filgueiras, presidente da Casa Jesus, Amor e Caridade, também da zona norte. "Tenho de pagar 30 funcionários. Atrasei alguns dias e depois peguei dinheiro emprestado. E está tudo atrasado, INSS, fundo de garantia", diz Filgueiras. Segundo ele, já houve casos pontuais de atraso, mas assim é a primeira vez.

A entidade existe desde 1995 e sofre com problema dobrado. A Casa Jesus tem convênio com a Smads e com a Secretaria Municipal de Educação. Na parceria com a primeira secretaria, atende 150 alunos por semestre em cursos profissionalizantes de gastronomia, maquiagem e administração. Com a de Educação, são atendidas 30 crianças com deficiências físicas variadas. Todos eles são alunos da rede municipal de ensino e necessitam de atendimento especial no contraturno. Não recebeu o valor adequado por nenhum dos serviços.

Para os dois convênios, a entidade recebe um repasse mensal de R$ 35 mil. Seu caso é ainda mais estranho, porque recebeu só parte do repasse - R$ 15 mil, referente a parte dos R$ 20 mil que lhe são devidos por conta dos cursos profissionalizantes.

Os outros R$ 5 mil ele não recebeu nesses dois meses nem tampouco o valor que viria da Secretaria de Educação. "Se somar, estou com uma dívida de R$ 40 mil", diz ele. Segundo Filgueiras, ele preferiu não avisar pais e responsáveis sobre os problemas de financiamento.

Mais casos. O Estado confirmou com mais cinco entidades os atrasos. As entidades preferem não comentar os problemas por conta da dependência que têm do município para operar.

Em um abrigo que atende 20 crianças na região central, o presidente da entidade permanecia otimista - apesar da inadimplência que já soma R$ 40 mil, referente a R$ 20 mil por mês. A entidade trabalha com crianças com problemas de violência e abusos em família "A gente trabalha com reserva de orçamento, mas, a partir de hoje, se não vier o repasse, vamos começar a ter dificuldade", diz seu presidente.

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