Divulgado vídeo de 2010 com depoimento de Bergoglio à Justiça

Então arcebispo de Buenos Aires revela ter exigido de líder militar da ditadura libertação de padres presos

MARINA GUIMARÃES , CORRESPONDENTE/ BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2013 | 02h06

Um vídeo do depoimento do então cardeal Jorge Bergoglio à Justiça argentina revelou, ontem, detalhes da audiência realizada há dois anos sobre o suposto envolvimento do papa com a ditadura militar argentina. Na época arcebispo de Buenos Aires, Bergoglio contou à Justiça que, em 1976, havia procurado o chefe da Marinha, o almirante Emilio Massera, para pedir a libertação dos dois padres jesuítas sequestrados pelo regime militar.

"Me reuni duas vezes com o comandante da Marinha naquele momento, com o Massera", contou o arcebispo no depoimento prestado em 2010, durante o julgamento de crimes de lesa-humanidade cometidos pela ditadura de 1976 a 1983, na Escola de Mecânica da Armada da Marinha (Esma), onde funcionou o principal centro de detenção clandestino e de tortura.

No vídeo, o atual papa diz que o segundo encontro durou menos de 10 minutos e não foi em bons termos, terminando com um ultimato de Bergoglio: "Olhe, Massera, eu quero que eles apareçam", afirmou.

Naquela época, Bergoglio era líder dos jesuítas e havia recebido informações de que os sacerdotes Orlando Yorio e Franz Jalics haviam sido sequestrados pela Marinha.

Este segundo encontro de Bergloglio com Massera teria ocorrido dois meses após a primeira reunião, quando, segundo diz o religioso, "já era quase certo de que era a Marinha quem tinha sequestrado os dois jesuítas".

Inocência. Em seu depoimento, o então cardeal de Buenos Aires também conta que, antes do sequestro, ele havia se reunido "com os dois e com todos jesuítas que trabalhavam nessa frente de opção pelos pobres", com a população carente do país. Bergoglio negou que tenha repreendido os sacerdotes.

No mesmo julgamento, uma das testemunhas era María Elena Funes, que realizava trabalhos de alfabetização e evangelização no mesmo bairro.

María Helena disse à Justiça que Yorio - um dos jesuítas sequestrados, morto no ano 2000 - teria lhe contado que o "chefe da ordem" (Bergoglio) desautorizou o trabalho dos dois padres por "razões ideológicas".

Paradeiro. Franz Jalics, o outro padre sequestrado no episódio, vive na Alemanha desde o ano de 1978. Na semana passada, depois de Bergoglio ter sido eleito papa, Jalics disse "que estava em paz com ele" e ontem voltou a se manifestar (mais informações ao lado).

O chefe da Marinha, Emilio Massera, morreu antes que terminasse o julgamento por crimes cometidos na Esma. Ao fim do processo, em outubro de 2011, 11 repressores da ditadura argentina foram condenados à prisão perpétua.

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