Do macacão sujo de óleo do pré-sal à 1a campanha de Dilma

No segundo turno de 1989, ela dava seu voto para eleger presidente o homem que, dali a duas décadas, seria seu maior fiador político para comandar a Presidência da República.

NATUZA NERY, REUTERS

13 de junho de 2010 | 12h04

Dilma Vana Rousseff, 62, nunca foi uma liderança política reconhecida. Cria do mundo técnico, construiu sua carreira pública manuseando burocracias de governo.

Envolveu-se no movimento estudantil na década de 1960, até colocar o pé na luta armada contra o regime militar.

Nascida em Minas Gerais, colégio eleitoral que deseja conquistar na disputa deste ano, reunia os companheiros de esquerda em sua casa para discutir política e organizar ações contra a ditadura. Diz jamais ter participado de atos violentos.

Foi presa por quase três anos e torturada, período sobre o qual evita falar.

Filiada ao PDT gaúcho anos depois, foi secretária de Fazenda e duas vezes de Energia no Rio Grande do Sul. Em 1989 trabalhou no primeiro turno da campanha presidencial ao lado de Leonel Brizola. Atuou sempre em ambiente predominantemente masculino.

Em 2002, Luiz Inácio Lula da Silva escolheu Dilma pela primeira vez.

O líder operário havia derrotado José Serra (PSDB) naquele ano e buscava um titular para o Ministério de Minas e Energia. Admirou-se com a eloquência de uma das poucas mulheres do grupo que discutia a transição da administração tucana para a petista. Em sua gestão à frente do cargo, instituiu o novo marco regulatório do setor.

Seu estilo incisivo --truculento para uns e assertivo para outros-- começava a ser noticiado na imprensa, rendendo-lhe reputação de administradora exigente.

Em um ambiente masculino de gestão, ganhou fama de durona.

"Tenho uma mãe de santo em Salvador e ela sempre diz que a falsidade derruba o político. Com Dilma, não é assim. Ela pode até ser mau-humorada, mas há verdade nela", diz Fátima Mendonça, fã declarada da candidata e mulher do governador baiano Jaques Wagner, com quem Dilma já brigou no passado e de quem hoje é amiga.

Ao mesmo tempo, atraía mais e mais a atenção do chefe. Tanto que, três anos mais tarde, o presidente a escolhia pela segunda vez. Seu perfil técnico foi decisivo para assumir a Casa Civil.

O escândalo do mensalão atingia em cheio o coração do governo e derrubava o superministro José Dirceu, principal articulador político do Planalto. Era necessário imprimir um perfil austero à pasta.

Do colega de função, herdou a gerência do Executivo federal; a casa em local nobre da capital brasileira e o cão labrador Nego, uma de suas atuais paixões.

Em 2006, outra crise, que desta vez alveja o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, visto na ocasião como sucessor natural de Lula. Acusado de violar o sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos, morria a última opção óbvia do PT para disputar as eleições de 2010.

O presidente escolheria Dilma Rousseff pela terceira vez. Um nome estranho ao partido, cuja filiação soma apenas uma década; inexperiente nas articulações partidárias e pagão em eleições.

A DESCOBERTA PREMIADA

Detentor de invejável popularidade, Lula surfava numa fase alvissareira. A Petrobras anunciava em 2007 a existência de megareservas de petróleo no fundo do mar, descoberta que colocaria o Brasil na próxima década no concílio dos maiores produtores mundiais da commodity.

Não muito tempo depois, Lula carimbava nas costas de sua candidata as mãos sujas com o óleo do pré-sal. Imprimia suas digitais no macacão laranja usado pela ministra, como quem a empurrasse para o desafio de continuar seu projeto de poder com um "bilhete premiado". Não por acaso, a exploração do pré-sal tornou-se um dos grandes motes da campanha governista.

Dilma, pela terceira vez, aceitou a missão.

CÂNCER

Um câncer no sistema linfático pôs em risco o plano de Lula.

No início de 2009, Dilma anunciava a doença aos jornais e enchia de dúvidas o mundo político. Não havia plano B para concorrer à Presidência.

Lula cuidou dela com a preocupação de um pai. Em junho passado, o presidente concedia entrevista à Reuters no Palácio da Alvorada quando perguntou a um auxiliar: "E Dilma, como está se sentindo hoje?." Era um claro sinal de que ninguém, nem mesmo os médicos, garantia o futuro da ministra no ringue eleitoral.

As sessões de quimioterapia deixaram-na calva. Dilma aderiu à peruca.

"Mexeu muito com ela perder o cabelo", contou o cineasta Helvécio Ratton, amigo de Dilma há 42 anos.

Hoje, recuperada e de visual novo preparado especialmente para a campanha, Dilma não esconde o orgulho.

"Ela está se sentindo bonita agora", acrescentou Ratton, também companheiro na luta armada.

A ex-ministra, forjada candidata no laboratório de Lula, coloca o pé neste sábado na primeira campanha eleitoral de sua vida. Quer ser eleita a primeira mulher presidente do Brasil.

Recentemente, ela ganhou fama de casamenteira. Ajudou a reconcilicar o presidente do PT, José Eduardo Dutra, com sua namorada. A ex-ministra assumiu o papel de cupido no congresso do PT, em fevereiro, que a indicava pré-candidata ao Planalto.

Achando o colega triste, disse a então à ex-namorada de Dutra que ele "não existia sem ela". Resultado: Dutra chegou à convenção na manhã deste sábado de mãos dadas com sua musa.

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