Do pé-limpo ao pé-sujo: um guia passo-a-passo

Entre cabritos, sardinhas, caldos e torresmo, o carioca define sua turma

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2007 | 06h27

Não é todo carioca que conhece o Triângulo das Sardinhas. O complexo de botequins, no centro do Rio, serve as melhores sardinhas da cidade. Chamam-nas de frango do mar. É o tipo do cantão freqüentado por estrangeiros que se fizeram cariocas ao longo dos anos, porteiros, gente que trabalha no porto, executivos na happy hour. A boemia do Rio, que já viveu melhores dias, tem disso: pequenos segredos e territórios conhecidos. Em alguns casos, decepciona. Não se bebe bom chope. As exceções de praxe - Bar Luiz, Bar Brasil, Bar Lagoa - apenas o confirmam. Não era assim, mas o descuido com os barris expostos ao sol, o armazenamento abafado e uma certa displicência de carioca que não reclama resultaram num quadro triste. Aquilo que, em São Paulo, chamam de ''''botequim carioca'''' é o que lá chamam ''''botequim de paulista''''. São os pé limpos. Têm seus méritos, chope acima da média, mas nada com a tradição boêmia da cidade. Nos pés sujos, come-se bem. O Nova Capela, ao qual se chega logo depois de passar os Arcos da Lapa, serve barato o melhor cabrito do Brasil. Acompanha arroz de brócolis ou, para quem não gosta, arroz colorido. Carioca come feijão - mas não aquele que os paulistanos chamam de carioquinha. É feijão preto. Se sardinhas ou cabrito são pratos da noite, a feijoada do Mineiro, em Santa Teresa, é boa pedida para o dia. Lá tem cerveja de garrafa, sempre impecavelmente gelada. Caldinho de feijão, qualquer botequim o serve com torresmo. O botequim que um indivíduo freqüenta o define. O Baixo Leblon, cheio destes novos botequins chiques, é povoado por uma turma de uns 40 que vinte anos atrás bebia com Cazuza. Bares históricos, como o Real Astória, já se foram faz anos. O local intocado é ainda o Baixo Gávea, com seus botequins originais, freqüentado pelos de 30, atores e alunas da PUC. Às vezes, a comida não é boa, o chope tampouco, mas o ambiente justifica a presença do boêmio. É o caso do Hipódromo, no Baixo Gávea (pode chamar de BG). Carioca é fiel ao botequim e ao garçom. Quando um dos pés-limpos ameaçou contratar o Paiva, do Jobi (Baixo Leblon), foi uma comoção. Paiva não aceitou: é homem honrado. É que esta é a regra fundamental de um botequim carioca: garçom deve ser chamado pelo nome. Ele é uma espécie de anfitrião da casa, o motivo pelo qual se vai ao lugar. Mestre Lacerda, do Hipódromo, ou o Paiva, são celebridades e há discussões veementes a respeito de quem serve melhor. O carioca boêmio se divide em partidos. Chame um garçom pelo nome do outro - uma amiga, certa vez, o fez lá pelas tantas -, e o olhar fulminante de desprezo é certo. A noite carioca começa a acabar lá pelas 3h30, quando os bares da cidade vão fechando e os últimos de pé vão migrando aos poucos para o Jobi, que permanece aberto até os primeiros raios. Aí, quem agüentou até a hora de as moças de biquíni e canga saírem para a praia cura a ressaca com uma fatia engordurada na Pizzaria Guanabara, ao lado. Só bêbado gosta. Ninguém deve ir ao Rio para comer pizza.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.