Do Rhône à África

Na África do Sul, a uva Shiraz vem provavelmente gerando os melhores cinhos tintos do país

O Estado de S.Paulo

14 Fevereiro 2008 | 03h20

Syrah ou Shiraz? Tanto faz, pois a uva é a mesma. Nasceu Syrah nas Côtes du Rhône, na França, e depois virou Shiraz na Austrália, nome adotado por vários países. Na África do Sul, por exemplo, onde a Shiraz se deu muito bem, virou nome quase oficial. Já no Chile, onde encontramos também ótimos exemplares, ela aparece como Syrah em alguns rótulos e Shiraz em outros. O nome muda, mas a qualidade é a mesma. Até pouco, havia a lenda de que essa uva foi levada do Oriente Médio para a França pelos cavaleiros cruzados. Mas recentemente a engenharia genética sepultou essas lindas histórias e mostrou que ela nasceu espontaneamente na região onde mais brilha, as Côtes du Rhône. Na França, a Sirah produz vinhos complexos, meio misteriosos, que demandam tempo para demonstrar suas qualidades, como os de Côte Rôtie e Hermitage. Mas o grande impulso para a expansão dessa uva em outros países foi dado pela Austrália, onde ela gera vinhos gostosos, cheios de fruta, quase sempre envelhecidos em carvalho, com algo de baunilha, doces, macios. Vinhos que, a partir do maravilhoso Grande Hermitage (hoje, só Grange, o primeiro grande feito com essa uva), conquistaram muitos mercados. Na África do Sul, a Shiraz vem se destacando e provavelmente gerando os melhores tintos do país. Há também vinhos muito bons feitos com as uvas de Bordeaux (Cabernet Sauvignon e Merlot), mas os melhores que tomei vieram da Shiraz. Nesse país, a vinicultura é, ao mesmo tempo, tradicionalíssima e nova. Ela nasceu em 1659, quando o governador da colônia Simon Van Stel plantou as primeiras vinhas em sua fazenda, em Groot Constantia. Mas os vinhos só se desenvolveram realmente depois do fim do odioso regime do apartheid, quando o país se abriu para o mundo e ventos da liberdade permitiram a plantação das novas uvas, o aparecimento de novos produtos e assim por diante. Democracia e livre iniciativa são ótimas também para os vinhos. As vinhas se concentram principalmente na parte mais ao sul, na região do Cabo, a Coastal Region. Stellenbosch, Paarl, Franschoek, Constantia, são algumas das principais denominações. PORCUPINE RIDGE SHIRAZ 2006 ONDE ENCONTRAR: MISTRAL, R. ROCHA, 288, 3372-3400 PREÇO: R$ 42,78 COTAÇÃO: 88/100 Um vinho da Coastal Region, uma denominação genérica, feito pela respeitada vinícola Boekenhauskloof (ufa!). Um tinto encorpado, concentrado, que vai bem até o final de boca, quando aparecem demais o álcool e um certo toque amargo. Aroma muito bom mesmo, potente e com evocações vegetais. Talvez eucalipto ou pimentão, lembrando nisso alguns tintos chilenos. Muito bom mesmo o aroma, que evoluiu com o tempo no copo, passando a apresentar algo de chocolate. Na boca, começa potente, doce e muito gostoso. Primeira impressão das melhores, que continua durante bom tempo na boca. Concentrado, com ótimo corpo e até um pouco elegante. Boa acidez, nada enjoativo. Vai tudo muito bem até o final,quando a alta graduação alcoólica se destaca e o vinho fica rústico. Álcool demais. 14,5% de álcool. BRAMPTON RUSTENBERG 2005 ONDE ENCONTRAR: EXPAND. TELEVENDAS, 3846-4747 PREÇO: R$ 49 COTAÇÃO: 91/100 Um tinto de Stellenbosch, uma das melhores regiões vinícolas da África do Sul. A Shiraz é, de longe, a uva dominante, mas aparece ao lado de outras também originárias das Côtes du Rhône, como Mourvèdre/,Grenache e Viognier. Mesmo não sendo um puro sangue, não poderia ficar de fora, pois é uma ótima dica para o consumidor. Na composição, lembra um Châteauneuf-du-Pape. Um ótimo tinto, do começo ao fim, do tipo que cativa ao primeiro contato com seu aroma exuberante, evocando principalmente flores. A primeira impressão na boca foi o ponto mais forte. Presença marcante, grande concentração de sabor, redondo e encorpado. De novo, flores misturadas com especiarias. Fácil de beber e de gostar. Em nenhum momento ele cai e o final é dos mais agradáveis. Ótima relação qualidade-preço. 14,5% de álcool. RUST EM VREDE SHIRAZ 2001 ONDE ENCONTRAR: VINCI. TELEVENDAS 6097-000 PREÇO: R$ 77,42 COTAÇÃO: 90/100 A Rust em Vrede é outra vinícola de prestígio, da ótima região de Stellenbosch. O mais velho do grupo. Um tinto que já mostra um certo envelhecimento na cor, bem escura, com reflexos ligeiros grenás, o que costuma vir com a idade. Aroma potente, também de vinho evoluído. Complexo, com várias nuances, com algo de ameixa em calda, frutas vermelhas, cacau. Toque de carvalho evidente. Também um pouco alcoólico no nariz (picou um pouco as mucosas). Ataque dos melhores. Vinho com grande presença na boca, concentrado, encorpado. Mas um pouco alcoólico demais. Final meio ''''ardido'''' por causa do álcool. Depois de um certo tempo no copo, ele foi ficando mais macio e equilibrado. O álcool se destacando um pouco menos. Para quem gosta de vinhos potentes. Boa acidez, nada enjoativo. Graduação alcoólica não especificada. STEENBERG SHIRAZ 2004 ONDE ENCONTRAR: EXPAND. TELEVENDAS, 3846-4747 PREÇO: R$ 98 COTAÇÃO: 92/100 Um vinho da região de Constancia, onde foram feitos os primeiros vinhos da África do Sul. Um tinto encantador, que está em seu auge, embora possa envelhecer um pouco mais A Steenberg é uma vinícola de ponta, também com ótimos brancos (Sauvignon). Este vinho é mesmo muito bem feito, complexo, sem arestas e sem exageros. Aroma potente, com bastante carvalho, mas deixando espaço para as frutas e outras nuances. Coco e ameixa preta no aroma. Esses aspectos continuam sensíveis na boca. Potente, quente, mas não alcoólico demais. A graduação é alta, mas o álcool acaba equilibrado por outros componentes. Um vinho redondo, macio, sedoso, mas não enjoativo. Final dos mais gostosos. Longo, prolongando o prazer no tempo. 14% de álcool.

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