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Documentário reabre debate sobre suicídio

Filme do escritor Terry Pratchett, exibido ontem na Grã-Bretanha pela BBC, mostra como um milionário viajou à Suíça para se matar em uma clínica

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

14 Junho 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE/ GENEBRA

Um documentário mostrado pela rede BBC reabriu o debate sobre o suicídio assistido na Europa. Ontem, a tevê pública britânica mostrou como um milionário, Peter Smedley, decidiu dar fim à sua vida em uma clínica privada na Suíça, especializada em ajudar pacientes a morrer.

A clínica afirma ter ajudado em mais de mil suicídios desde que começou a operar, há 12 anos. Mas nunca a prática tinha sido transmitida por uma tevê.

A difusão da morte do inglês foi alvo de críticas por parte de ONGs e da Igreja Católica. Com 71 anos, Smedley sofria de uma doença neurodegenerativa, a esclerose lateral amiotrófica. Ao saber que não tinha cura, viajou até a Suíça no ano passado e se apresentou à clínica Dignitas. A morte ocorreu em dezembro.

No documentário Escolhendo Morrer, o apresentador e escritor Terry Pratchett conta que foi diagnosticado com a doença de Alzheimer em 2008. Ele dizia não querer perder sua consciência para a doença e fez o filme para mostrar um modo de terminar com a vida antes que a doença tirasse sua independência.

Turismo da morte. Na Suíça, o suicídio assistido é permitido, o que criou nos últimos anos um verdadeiro "turismo da morte". Na clínica Dignitas, o paciente recebe o material para injetar um produto químico que mata em alguns segundos. A pessoa entra em uma sala, senta-se em um sofá, um tubo é colocado em sua veia e, a partir daí, cabe ao paciente decidir se aperta o botão que fará com que o líquido entre em seu corpo. Tudo é gravado por uma câmara oculta.

Minutos depois, a clínica chama a polícia para informar da morte e é comprovado que não houve a participação de outra pessoa. A clínica afirma que apenas dá o sinal verde para o processo após ser constatado que o cliente sofre de doença incurável e está de posse de suas faculdades mentais.

Para críticos, a decisão de mostrar o processo na tevê é propaganda do suicídio assistido e lobby pela aprovação da prática nas leis britânicas. "É um exemplo de como a BBC está em campanha vigorosa para legalizar o suicídio assistido na Grã-Bretanha", disse Peter Saunders, porta-voz do grupo Care Not Killing. "A BBC corre o risco de jogar pessoas vulneráveis para o mesmo caminho." No país, ajudar a alguém a morrer pode dar pena de 14 anos de prisão.

Defesa. A rede de TV se defende, alegando que se trata apenas da história da vida de um homem. Entidades que apoiam o suicídio assistido defenderam o programa. "O filme mostra um assunto muito importante, sobre o qual a sociedade precisa se perguntar", disse Sarah Wooton, diretora da entidade Dignidade na Morte. "Censurar um debate não ajuda aqueles que sofrem de maneira intolerável."

O documentário termina com a cena da injeção do líquido, com Smedley chamando sua esposa e segurando sua mão, enquanto um funcionário da clínica explica que ele está prestes a morrer.

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