Doenças mentais 'levam 650 mil ao suicídio por ano'

Estudo revela que problemas psicológicos já são as maiores complicações não infecciosas do mundo

Agências internacionais,

04 de setembro de 2007 | 09h25

Pelo menos 650 mil portadores de doenças mentais, mais de 80% deles nos países em desenvolvimento, cometem suicídio a cada ano, alerta nesta terça-feira, 4, um artigo publicado na revista científica The Lancet. Grande parte desse contingente se deve à falta de tratamento adequado e à marginalização que ainda hoje afeta os que sofrem com esse tipo de transtorno, afirmou à BBC Brasil um dos autores do artigo. Segundo a pesquisa, os transtornos mentais são atualmente as doenças não contagiosas mais difundidas do mundo, e aumentam o risco de problemas cardíacos e diabetes.   Os números constam de uma série de artigos publicados pela Lancet em colaboração com o Instituto de Psiquiatria do King''s College de Londres e a London School of Hygiene and Tropical Medicine.   Estima-se que doenças mentais, como esquizofrenia, depressão, transtornos obsessivo-compulsivos e ansiedade, representam 14% das doenças do mundo, mais que o câncer ou as doenças cardíacas.   Saúde mental Entretando, criticou a Lancet, a saúde mental "permanece uma prioridade secundária na maioria dos países de renda média e baixa". Já os países desenvolvidos, acrescentou a revista, "priorizam doenças que causam morte prematura (como câncer e doenças do coração)." "Tem havido uma falha crítica de liderança entre países, agências, financiadores e profissionais médicos, e essa falha tem continuado a estigmatizar a saúde mental e aqueles com problemas de saúde mental", disse o editor da Lancet, Richard Horton, durante o lançamento da série em Londres. "Esse relatório que estamos publicando tem o objetivo de desenhar uma linha entre a era de negligência e o que acreditamos ser um novo movimento político, social e científico para tornar as doenças mentais um interesse vital para o futuro."   Chamando atenção para a necessidade de se debater a saúde mental no mundo, um dos artigos destaca que os problemas mentais respondem por entre 80% e 90% de todos os 800 mil suicídios registrados anualmente no planeta.   "Mas é preciso dizer que esta estatística subestima o número de real de pessoas que cometem suicídio", explicou à BBC o professor Vikram Patel, professor da London School of Hygiene e um dos autores do estudo. "Em muitos lugares, o suicídio é fortemente estigmatizado, até mesmo criminalizado. Na Índia, há evidências de que o número real de suicídios é quatro vezes maior que o reportado."   Estigma Um dos artigos afirma que o Brasil avançou no tratamento de doenças mentais. Ainda assim, os cientistas destacam que nas grandes cidades brasileiras muitos doentes são vistos mendigando em esquinas e dormindo sob pontes e viadutos.   Segundo o diretor da The Lancet, Richard Horton, os transtornos mentais "não são apenas pouco priorizados, mas profundamente estigmatizados na sociedade". Por falta de recursos ou por estigma social, nove entre dez pessoas que sofrem de problemas mentais deixam de receber tratamento adequado em alguns países emergentes, alerta a revista. Na Zâmbia, por exemplo, muitos temem procurar tratamento diante da possibilidade de serem confundidos com "vítimas de bruxaria" ou como se estivessem "possuídos por demônios".   A publicação afirma que o custo para fornecer os meios necessários para o tratamento seria de apenas US$ 2 por pessoa nos países subdesenvolvidos, e de US$ 3 a US$ 4 nos países de renda média.   O economista e diretor do Instituto da Terra da Universidade de Columbia (EUA), Jeffrey Sachs, se mostrou convencido de que o combate aos problemas de saúde mental é "um dos maiores desafios" enfrentados pela sociedade no século XXI.   "Não se trata só de conseguir mais orçamento. É vital fazer os recursos chegarem aos países com receitas menores", afirma Sachs, que considera a pobreza e a falta de educação dois dos fatores que mais propiciam as desordens mentais.

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