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Dólar barato, opção americana

O dólar barato continuará a assombrar a indústria brasileira por muito tempo, se isso depender do Executivo e do banco central dos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed). A economia americana começou a recuperar-se, depois de mais de um ano de recessão, mas a convalescença é lenta e o desemprego é alto. A revisão das contas do terceiro trimestre apontou um crescimento real equivalente a 2,8% ao ano e não a 3,5%, número estimado inicialmente pelo Departamento de Comércio e divulgado em outubro. O governo do presidente Barack Obama deverá prolongar o apoio fiscal à reanimação dos negócios até surgirem sinais de uma reativação mais firme. Enquanto essa política for mantida, haverá pouco espaço para a revalorização da moeda. Mas, quanto maior a duração dos incentivos fiscais, maior será o rombo acumulado nas contas federais e mais perigoso será o crescimento da dívida pública. Esse fator talvez precipite uma alta dos juros nos EUA, mas o problema fiscal é apenas mencionado rapidamente na última Ata do Comitê de Política Aberta (Fomc), responsável pela política monetária americana.

, O Estadao de S.Paulo

26 de novembro de 2009 | 00h00

A política do Fed também deverá continuar frouxa por um bom tempo, talvez até 2011. A disposição de manter juros muito baixos foi reafirmada na Ata da reunião do Fomc, publicada na terça-feira. Os juros básicos estão na faixa de zero a 0,25% ao ano desde 2008. Na reunião dos dias 3 e 4 de novembro, os membros do Comitê decidiram por unanimidade manter a taxa nesse intervalo "por um longo período", porque há muita capacidade ociosa na economia, os preços estão contidos e as expectativas são de inflação baixa e estável. Além disso, ainda não chegou o momento, segundo o Comitê, de retirar o dinheiro - mais de US$ 1 trilhão - injetado no sistema financeiro para fortalecer os bancos e estimular a reativação dos empréstimos.

As projeções centrais discutidas na reunião indicam uma contração econômica na faixa de 0,4% a 0,1% neste ano, desempenho melhor que o estimado em junho, mas ainda negativo. Para 2010 estimou-se um crescimento de 2,5% a 3,5%, insuficiente para compensar a destruição de postos de trabalho ocorrida a partir do início da crise. O desemprego, hoje próximo de 10%, deverá continuar na vizinhança desse número - entre 9,3% e 9,7%.

Com tantos desempregados e com as famílias ainda muito endividadas, haverá pouco espaço para a ampliação do consumo. O mercado imobiliário continuará deprimido e os efeitos da crise no setor, iniciada em 2007, ainda se refletirão nos balanços das instituições financeiras, de acordo com o cenário considerado pelo Fomc.

Nessas condições, a variação dos preços ao consumidor deverá ficar na faixa de 1,3% a 1,6% e as pressões inflacionárias dificilmente serão maiores em 2011, embora a expansão da economia possa alcançar o intervalo de 3,4% a 4,5%. Do lado da inflação não haverá, portanto, motivos muito fortes para uma elevação dos juros nos próximos dois anos.

O aperto monetário começará provavelmente mais cedo na Europa. Essa iniciativa poderá alterar o cenário financeiro internacional, mas é difícil prever, agora, como o Fed reagirá - ou mesmo se reagirá - a uma reorientação da política do Banco Central Europeu.

Segundo a Ata do Fomc, houve uma discussão sobre estratégias para o período pós-crise. Os economistas do Fed já estudam fórmulas para uma "retirada suave" das medidas de estímulo, "no momento adequado". Mas esse momento, como ficou claro no relatório, continua distante - suficientemente distante, pelo menos, para tornar improvável uma revalorização sensível do dólar nos próximos 12 meses.

Para os americanos, as atuais condições do câmbio são muito satisfatórias. Favorecem a exportação sem criar grandes pressões inflacionárias, porque a demanda interna continua muito contida, e servem, até certo ponto, como barreira protetora do emprego. Dos empresários e trabalhadores não partirão pressões por um dólar mais valorizado.

Quaisquer medidas fiscais do governo brasileiro para conter a valorização do real terão sua eficácia limitada pelas condições do mercado internacional de câmbio. Muito mais prático, portanto, será cuidar da competitividade da produção nacional por outros meios, a começar pela reestruturação dos gastos públicos.

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