Dominada por rebeldes, cidade síria não se sente libertada

Rebeldes sírios falam com orgulho do dia em que as forças leais ao presidente Bashar al-Assad fugiram com seus tanques da cidade de Azaz, enquanto civis armados com rifles de caça se aglomeravam na praça principal. Mas, um mês depois, o sentimento por aqui não é de libertação.

OLIVER HOLMES, Reuters

22 de agosto de 2012 | 10h55

A oito quilômetros do centro, o Exército ainda controla uma base aérea da qual dispara mísseis quase todas as noites contra Azaz, de onde mais da metade da população fugiu. E, na semana passada, um caça atirou duas bombas num bairro residencial central, matando pelo menos 30 pessoas.

"Não estamos libertados. Temos de esperar até depois que Assad for derrubado, eu acho", disse o jovem ativista Abu Imad, ex-estudante de Direito que deixou a faculdade no último ano de curso, em março de 2011, para se juntar à então nascente rebelião contra Assad.

Grande parte do leste e norte da Síria, nas fronteiras com Iraque e Turquia, e também alguns trechos da Síria central, estão fora do controle de Assad, que agora prioriza o combate aos rebeldes em cidades como Aleppo, Hama e Damasco. Isso deixa muitas localidades menores numa situação semelhante à de Azaz, num limbo.

O local é incapaz de ter um cotidiano normal, embora os temidos soldados do governo não estejam mais nas ruas. Pilhas de lixo se acumulam, as escolas permanecem fechadas, e o principal hospital está vazio -- os funcionários fugiram para o outro lado da fronteira com a Turquia, a três quilômetros.

Poucas ruas permanecem ilesas depois de meses de bombardeios, e as portas das lojas estão retorcidas pelas explosões. Famílias que permaneceram ficam sentadas, apáticas, à sombra das suas casas. Um ou outro adolescente rebelde vaga de moto pelas ruas com seu rifle.

Muitos moradores de Azaz envolvidos na luta formaram brigadas e se deslocaram para a linha de frente em Aleppo, maior cidade do país, onde as forças de Assad combatem os rebeldes bairro a bairro.

Seus corpos voltam para Azaz sobre macas, lembrando à pacata cidade fronteiriça que a guerra está longe de ser ganha. Na manhã de terça-feira, um combatente de 18 anos foi morto na linha de frente ao ser atingido na cabeça pelo disparo de um franco-atirador.

Os funerais aqui são frequentes, e quem visitava a casa de Amar Ali Amero observava sem grande comoção o seu corpo envolto em cobertores. Só os parentes mais próximos pareciam chocados com sua morte. O pai dele desmaiou ao ver o cadáver.

No cemitério, os coveiros agiam de forma robótica. É um ritual bem conhecido, e há dezenas de covas recém-abertas, enfileiradas. As tumbas mais antigas, de antes da guerra, são bonitas, com escritos árabes gravados sobre o mármore. As mais recentes, abertas às pressas, têm apenas lascas de pedra com os nomes dos mortos e as datas de nascimento e falecimento escritas a caneta hidrográfica.

Várias covas foram abertas à espera de inevitáveis mortes ainda não ocorridas. Algumas têm apenas 1,20 metro de comprimento. "Para os bebês', disse um transeunte.

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