German Lorca
German Lorca

Domingo no parque

Ele diz que tenta, mas não consegue. Não consegue o quê, Lorca? Tomar suco de laranja sem açúcar. "É que sou muito agitado, preciso de energia extra", ri. Bobagem comentar que sacarose não combina com a diabete mencionada momentos antes. German Lorca, 91 anos, está um lance de escada à frente, no estúdio de fotografia dos filhos, no bairro da Vila Mariana. Lá em cima saca um par de luvas brancas, me oferece outro e começa a puxar da prateleira a primeira caixa de fotos em tamanho família, 40 cm x 50 cm. Está ansioso para mostrar a série de imagens que fez do Parque do Ibirapuera, no período de 1998 a 2001. Algumas entraram para a coleção do MAM-SP, mas a maioria é inédita, e teria chegado o tempo de revelá-las.

Mônica Manir,

22 Março 2014 | 16h00

Esse garoto nascido no Brás descobriu cedo que a fotografia lhe adoçava a vida. Aos 13 anos fez sua primeira foto, um retrato dos pais no quintal de casa. Usou uma Kodak Bullet 127, que custou baratinho. Com a mesma máquina tirou uns flagrantes de Maria Eliza quando ainda eram noivos e percebeu que, intuitivamente, sabia enquadrar. Um pé no escritório de contabilidade não impediu que o outro ingressasse no Foto Cine Bandeirante. Ali fez estripulias ao lado de Geraldo de Barros: cortes, desfoques, jogo de sombras, geometrismos. Ousadias de modernistas, gente ligada na velocidade da metrópole.

Metrópole que esse filho de espanhóis nunca abandonaria. Lorca foi o fotógrafo oficial das comemorações do Quarto Centenário e dos 450 anos de São Paulo. Acompanhou Nelson Rockefeller em sua visita à capital do Estado. Fotografou o casamento de Maysa com Andrea Matarazzo na Catedral da Sé. Afora os transeuntes que cruzaram seu dia a dia. "Eu gostava de reportagens, de coisas mais humanas." Eis um dos motivos para a sua incursão no Parque do Ibirapuera. Os outros ele explica a seguir - com açúcar, afeto e uma pitada de fel.

Por que o Ibirapuera?

Porque é o parque do povo. E porque eu moro perto dele, em Moema. Cheguei a fotografar, por muitos anos, a mata de eucalipto do parque. Uma avenida atravessava esses eucaliptos e terminava onde eu construí uma casa. Sabe como se chamava? Avenida Rodrigues Alves. Quando fui passar a escritura, perguntei: Avenida Ibirapuera? "Não, senhor. Rodrigues Alves." Ainda tem eucaliptos por lá, mas muito menos.

Você fez uma foto da Oca em 1954 que virou um clássico. Ela mostra uma senhora de mão dada com um menino, os dois caminhando na direção do ‘disco voador’ de Niemeyer. A senhora é sua avó; o menino, seu filho. Nestas fotos, tiradas há dez anos, alguma foi posada ou com gente conhecida sua?

Nenhuma. Eu abria a bolsa e tchá, tchá, tchá. Tudo com filme rápido, só os 400 ASA faziam isso. Alguns percebiam que podia ser em sentido profissional, mas nunca falaram nada. Tudo é tiro espontâneo: o pessoal se exercitando, lendo, descansando; as bicicletas; as pipas; os festivais; os casais; os artistas. Vida no parque é isso. Tem que ter um pouco de romance, de poesia, sem a poluição de hoje. Concorda ou não?

De que poluição você fala?

Do estacionamento, por exemplo. Parque não é lugar para estacionar. Devia ser como o Central Park, com metrô dos dois lados. Podiam providenciar transporte, linha especial, ou então deixar parar na Assembleia Legislativa do outro lado, nos fins de semana. A Assembleia não é do povo? Fora os vendedores lá dentro, aquele monte de sujeira, uma avacalhação. O local não é para esse excesso. O parque é bonito, mas devia ser mais parque do que loja de plástico.

Continua fotografando o Ibirapuera, mesmo assim?

Sim, vou direto, para flagrar essa barbaridade. Mas vou de táxi. Não vou de carro porque estaria indo contra minha acusação. Seria criminoso.

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