''Dr. Morte'' gerou debate

Patologista afirmava ter ajudado mais de 100 pacientes terminais a cometer suicídio

Ap e Nyt, O Estado de S.Paulo

04 Junho 2011 | 00h00

Jack Kevorkian, médico americano que estimulou o debate sobre o direito de pacientes terminais de abreviar seu sofrimento, morreu ontem aos 83 anos, em um hospital perto de Detroit, onde ficou internado por um mês com pneumonia e problemas renais.

O patologista aposentado, apelidado de Dr. Morte, que dizia ter ajudado cerca de 130 pessoas a morrer durante os anos 1990, considerava-se um benemérito tão importante quanto Martin Luther King e Gandhi.

"O assunto tem de ser levantado, até que uma decisão finalmente seja tomada", afirmou Kevorkian em uma edição do jornalístico 60 Minutes que mostrou uma gravação da morte de um paciente. Esse caso terminou por levar o médico à prisão.

Especialistas dão a Kevorkian o crédito pela popularização da ideia de suicídio com o auxílio de médicos. Mesmo assim, a prática foi legalizada em poucos Estados - Oregon, em 1997, Washington, em 2009, e em Montana, também em 2009 -, mas por uma decisão da Suprema Corte e não do Legislativo.

"Eu me coloco no lugar dos pacientes. Isso é algo que eu gostaria que fizessem comigo", afirmava Kevorkian. Mas ele estava fraco demais para fazer a escolha que ofereceu a outrem, disse seu ex-advogado Geoffrey Fiege. "Se ele tivesse força suficiente para fazê-lo, ele o teria feito."

As atividades de Kevorkian, no entanto, despertaram severas críticas de outros médicos. "O que ele faz é medicina veterinária", afirmou John Finn, diretor médico do Hospital do Sudeste de Michigan, em Detroit. "Quando você leva seu animal de estimação para o veterinário, ele pode decidir sacrificá-lo. O drama dos seres humanos é mais complexo que isso."

Kevorkian recebeu o apelido Dr. Morte durante a residência médica. E não foi pelo seu apoio à eutanásia. Ele utilizava um sofisticado mecanismo para fotografar a retina dos pacientes no exato momento da sua morte, pesquisa considerada "mórbida" pelas enfermeiras.

Em 1958, sugeriu a realização de testes clínicos em condenados no corredor da morte, pouco antes da execução. Também considerou a possibilidade de transfusão de sangue de mortos para combatentes no Vietnã, hipótese descartada pelos militares.

Ele se tornou conhecido em 1990, quando usou sua "máquina de suicídio" caseira, que carregava em sua van enferrujada, para injetar remédios letais em um paciente com Alzheimer que pediu sua ajuda para morrer.

Foi inocentado em seus três primeiros julgamentos e o quarto foi anulado. Acusações de homicídio contra ele foram inutilizadas porque não havia, em Michigan, leis contra o suicídio assistido - elas foram criadas por causa de Kevorkian. Ele foi finalmente condenado em 1999, por homicídio culposo, e cumpriu oito anos de prisão. No ano passado, ele foi interpretado por Al Pacino no filme para a TV You Don''t Know Jack.

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