Droga faz câncer envelhecer e morrer

Pesquisadores testam medicamento que impede a multiplicação das células de tumor; estudo em humanos ainda está em fase inicial

Karina Toledo, Com Reuters, O Estadao de S.Paulo

19 de março de 2010 | 00h00

Um medicamento que força as células cancerígenas a envelhecer e morrer está em fase inicial de testes em seres humanos. A pesquisa foi destaque na edição mais recente da revista Nature e promete ser mais uma arma no arsenal contra o câncer.

A capacidade de se dividir indefinidamente permite às células tumorais crescer e se espalhar pelo corpo. Mas, de acordo com estudos realizados em ratos, o bloqueio de um gene chamado Skp2 forçou essas células a iniciar um processo de envelhecimento conhecido como senescência. Esse processo ocorre, por exemplo, quando o corpo tenta se livrar de células da pele danificadas pela exposição excessiva ao sol.

"Se você bloqueia o Skp2 em células cancerígenas, o processo de envelhecimento é desencadeado", explica Pier Paolo Pandolfi, da Harvard Medical School, nos Estados Unidos. "Descobrimos que se você danifica as células, elas ficam irreversivelmente impedidas de crescer. E a droga experimental MLN4924 parece ter o poder de fazer exatamente isso", diz o pesquisador.

O medicamento, que está sendo desenvolvido pela Takeda Pharmaceutical, está na primeira fase de testes clínicos em seres humanos. Essa etapa abrange um pequeno grupo de voluntários e busca avaliar os principais efeitos colaterais e definir a dosagem segura.

A equipe usou para o estudo ratos geneticamente modificados que desenvolveram uma forma de câncer de próstata. Em alguns deles, os cientistas tornaram inativo o gene Skp2. Quando o rato atingiu seis meses de vida, eles descobriram que os portadores de Skp2 inativo não desenvolveram tumores, ao contrário dos outros ratos da pesquisa. Ao analisar os tecidos de nódulos linfáticos e da próstata, descobriram que muitas células tinham começado a envelhecer e notaram uma lentidão na divisão de células. Já nos ratos com a função normal do Skp2 isso não aconteceu.

Os cientistas obtiveram efeito semelhante quando usaram a droga MLN4924 no bloqueio do Skp2 em culturas de laboratório de células de câncer da próstata.

Alternativas. Há diversas linhas de pesquisa que buscam combater o câncer por meio do nocaute de genes essenciais ao crescimento e à sobrevivência das células tumorais, afirma a coordenadora do setor de Oncologia Clínica do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), Maria del Pilar Estevez Diz. "Há por exemplo uma linha grande de inibidores da angiogênese, moléculas que afetam os vasos responsáveis pelo aporte sanguíneo do tumor", explica.

Como há diversos tipos diferentes de câncer e nenhuma droga é eficaz contra todos eles, diz Maria del Pilar, é preciso explorar novas vias de ação. "Ainda é cedo para saber se essa estratégia é mais ou menos promissora do que as já conhecidas e contra quais tipos de tumor ela será eficaz, mas é um novo caminho que se abre no combate à doença."

PARA ENTENDER

1.

Como foi conduzida a experiência?

Os cientistas alteraram geneticamente alguns ratos, que desenvolveram uma forma de câncer de próstata. Observaram que, ao chegarem aos 6 meses de idade, os ratos que tiveram o gene Skp2 desativado não desenvolviam tumores. Quando analisaram os tecidos dos gânglios linfáticos e a próstata, descobriram que muitas células tinham envelhecido e que havia uma baixa taxa de divisão celular.

2.

O processo afetou outras células?

Não. Esse processo de envelhecimento ficou restrito às células cancerígenas.

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