Duas safras de Vega-Sicilia: pai e filho

Os austeros produtores do mais importante vinho da Espanha 'decantaram' em São Paulo durante a semana

Luiz Horta, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2008 | 02h59

Comparar o dono da vinícola com seus vinhos é fácil e tende ao banal. Mas depois de horas de conversa monossilábica, em que só aqui e ali ele se abre e mostra humor ou deixa escapar um comentário irônico, o paralelo é inevitável. Sem gravata e em viagem, Pablo Álvarez parecia relaxado. Estava ainda em ''decantação'': é austero e fechado como seus Vega-Sicilia. Precisa de tempo e a cada conversa é diferente. Na última vez em que o vi, três anos atrás, a coreografia foi de filme de suspense. Um telefonema tarde da noite para meu hotel na Rioja avisando: ''Amanhã ao meio-dia em Tordesilhas.'' Mais uma súplica que uma ordem, dada pelo amigo que intermediou o encontro. Praticamente uma audiência, sem discussão ou negociação de horário e local. No momento cravado, na cidade esquecida da meseta de Castilha Velha, no café do Parador, entrou o corpulento Álvarez, com uma capa de chuva bem fora do lugar e do clima: era verão, o céu azul não falava em precipitações. Explicou a visita que faríamos ao projeto novo da vinícola, em Toro, onde começavam a produzir os Pintias. Ao programa do dia acrescentou, sem nenhum sorriso: ''Vão uns amigos conosco.'' Amigos de preto, walk-talkies e carro blindado... Entendi a capa, que era à prova de balas. Álvarez é um grande empresário na lista dos terroristas, coisas das confusões bascas. Voamos para Pintia, onde os carros tiveram seus porta-malas examinados e detectores de bombas escanearam os veículos. Convenhamos que tudo isso torna uma pessoa grave e séria. Fim da operação militar, dentro da vinícola, Álvarez se transforma no melhor anfitrião, um amante dos vinhos, entusiasmado e perfeccionista. Vega-Sicilia faz seus tonéis, planta sobreiros para a cortiça, mantém padrões de perfeição que tornaram o nome algo que se pronuncia com reverência. Almoçamos com todos os vinhos que ainda não estavam no mercado, com alguns Tokajis de diversas safras iluminando o fim da comida. Agora em São Paulo, num almoço no Emiliano, um outro Pablo Álvarez aparece em férias, férias de workaholic, claro. Veio com o filho que estuda engenharia agronômica, o diretor técnico da vinícola, Xavier Ausás, e o coordenador do braço da empresa na Hungria, de onde saem os afamados e deliciosos Tokajis Oremus, recuperados para a qualidade depois do longo período estatal que tinha transformado os vinhos numa calda de açúcar, falsificados. Fala com leveza da viagem de duas semanas que fará ao Chile e Argentina. ''Projetos? Não, não vou comprar nada e nem investir lá. É só para conhecer mesmo.'' Arrisco uma pergunta, procurando não quebrar o clima de confiança com a verruma de uma entrevista. ''E o branco tão esperado do Vega?'' (Há um projeto de 15 anos para a produção de um vinho branco, o primeiro que farão. A cada ano são feitas microvinificações de teste, a decisão vai ser tomada em breve). Sua resposta, com um toque de sarcasmo: ''Ainda não há VS branco...''

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