Duelo de comal e frigideira

Patrícia Ferraz,

20 de maio de 2010 | 09h13

Tapioca. "A hora de comer tapioca depende do recheio. Com manteiga, vai bem no café da manhã, recheada vira almoço, com coco é sobremesa", diz Neide Rigo.

 

 

Era para ser um duelo. Uma tarde de disputas à beira do fogão. A tortilla contra a tapioca. A cozinheira mexicana Lourdes Hernández e a nutricionista brasileira Neide Rigo. Lourdes jogaria em casa, usando o próprio comal (aquela chapa de ferro em que se aquecem as tortillas) e com a vantagem de quem tem à mão todos os seus temperos, potes de barro e a louça colorida.

 

Neide era visita, tinha sido desafiada na última hora e topou a brincadeira sem hesitar. Se instalou numa mesinha lateral da cozinha e começou a tirar seu arsenal de duas malas térmicas cheinhas - tinha pedaços de mandioca crua ainda com a casca; potes com farinhas de tapioca coloridas à base de cenoura, beterraba, couve, açaí; mini-frascos com líquidos de cor de laranja, vermelho, verde. E havia os recheios, carne-seca, queijo de coalho, leite de coco, leite condensado, coco ralado. E as peneiras, a frigideirinha, as espátulas.

 

 

 

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Lourdes recebeu Neide com um abraço. Eram três e meia da tarde, e ela estava fazendo tortillas desde as 11 da manhã - ia preparando, conversando, mostrando, oferecendo, comendo e esperando pacientemente as fotos para o Paladar.

 

Quando Neide chegou, Lourdes estava às voltas com o taco dorado e já foi logo provocando. "Quero que a Neide entenda que só fiz ‘algumas’ tortillas, não preparei ni entomatados, ni enrolados, ni sapes, ni placocos, ni gorditas... para ela não ficar humilhada com a variedade da cozinha mexicana", cutucou Lourdes.

 

 

 

Tortilla. "Tortilla a gente come no café da manhã, no aperitivo, ao meio dia, no lanche da tarde, no jantar e na madrugada, antes de dormir", diz Lourdes Hernández.

 

 

Neide riu e ia começar a responder quando notou que a tortilla que Lourdes mantinha no fogo estava quase pronta. "Você vai rechear? Por que não experimenta usar essa minha carne-seca?". E foi abrindo o potinho. Resultado, logo no primeiro lance o duelo virou parceria.

 

Elas não chegaram a fazer uma tortilloca ou uma tapilla. Mas foi por pouco. O taco dorado de Lourdes (aquele que está pronto no prato azul na página ao lado) foi recheado com a carne-seca que Neide tinha refogado na manteiga de garrafa e temperado bem. Ficou gostoso, servido com alface picada, pedaços de queijo mexicano fresco com chiles.

 

Mas a combinação que deu certo, mesmo, foi a da tapioca de coco com o mezcal (um tipo de tequila, na verdade a bebida é a mesma, mas só pode levar o nome tequila quando é feita em determinados locais). Lourdes havia servido um "refresco" que levava mezcal, mel e maracujá e teve a ideia de verter a bebida sobre a tapioca que Neide fez para ela.

 

O fato é que o mezcal escorreu pelo beiju de tapioca, umedeceu a massa, emprestou seu sabor defumado, o azedinho do maracujá se encontrou com o leite de coco, deu um toque ao coco ralado... Ficou tão bom que não sobrou nada nem para a foto. Depois de algumas tentativas de batizar a criação, o nome escolhido foi tapioca mezcalera.

 

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