Dunn analisa a terceira via da febre tropicalista

Professor norte-americano publica no Brasil, pela Unesp, o livro Brutalidade Jardim, no qual revê legado estético da Tropicália e sua redescoberta no exterior

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

29 Dezembro 2009 | 00h00

Brutalidade Jardim, título tirado de um verso da música Geleia Geral, de Gilberto Gil (por sua vez, emprestado das Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade), é o nome que batiza o recém-lançado livro do brasilianista norte-americano Christopher Dunn sobre a Tropicália.

Não é por acaso que a junção do modernismo de Oswald e do tropicalismo de Gil batiza Brutalidade Jardim - A Tropicália e o Surgimento da Contracultura Brasileira (Unesp, 280 págs., R$ 37). O autor, professor da Tulane University, de New Orleans, é um estudioso da cultura brasileira. O interessante no estudo de Dunn sobre a Tropicália é que, mais do que um olhar para trás, uma revisão histórica, se trata também de analisar o impacto daquele movimento na produção artística que se faz atualmente - e sua influência no exterior, a partir dos anos 1990.

Inicialmente, Dunn estabelece conexão direta entre a Tropicália e os movimentos artísticos do início do século, notadamente a antropofagia cultural apregoada por Oswald. Põe o teatro de José Celso Martinez Corrêa como um rito de passagem do movimento (não por acaso, é Zé Celso quem escreve o prefácio do volume). Analisa as injunções políticas dos principais artistas do período e seus confrontos (involuntários) com o regime militar.

"A ideia básica da Tropicália era ressaltar o absurdo, a contradição em si, sem propor uma solução, justamente para incomodar o público", disse Dunn. Para o autor, a novidade do tropicalismo não foi a apropriação de estilos estrangeiros, já que essa é uma marca da música brasileira desde o século 19. Os tropicalistas também não propuseram um novo estilo, como a bossa nova, ou um novo gênero, como o samba. Seu amálgama de citações e apropriações buscava elementos da cultura americana, sul-americana hispânica e formulações da modernidade tecnológica. A novidade teria sido o "abrasileiramento" dessas formas exógenas, de forma a fazer com que essas práticas fossem reconhecidas e aceitas como brasileiras.

"Talvez os melhores exemplos do tipo de canibalização irônica típica da Tropicália possam ser ouvidos nos discos dos Mutantes", escreve Dunn. O som da banda inspirou diversos artistas jovens americanos, como Beck, que fez um álbum chamado Mutations, em 1998, pleno de citações ao som que o impactou. Seu trabalho foi analisado como sendo algo contado da perspectiva de um "expatriado desencantado, vivendo em um lugar que "fede a encantos tropicais, onde os turistas roncam e se decompõem"", descreve.

Christopher Dunn analisa com especial atenção o fenômeno da redescoberta de Tom Zé, no final dos anos 1990, após a reedição de seus discos nos Estados Unidos pelo selo Luaka Bop, de David Byrne. Tom Zé, na visão de Dunn, cumpre uma função mais educativa e abrangente do que seus colegas mais famosos nesse período. "Tom Zé abriu os ouvidos para uma tradição experimental e vanguardista na música brasileira que havia passado despercebida - salvo algumas exceções, como a música instrumental de Hermeto Pascoal, uma exceção que confirma a regra porque a inserção internacional do Hermeto sempre se deu por meio do jazz", diz.

Dunn conta que teve a ideia do livro em 1985, quando tomou contato pela primeira vez com a bossa, os sambas de Chico e as baladas de Roberto Carlos. Mas um disco em especial o deixou embasbacado: Panis et Circensis, de 1968. "Seria uma celebração patriótica da vida nos trópicos? Ou uma sátira ferina? Seria uma apologia da modernização sob o governo militar? Ou um álbum de protesto?" Quando soube do que se tratava, pensou que poderia ser objeto de uma ótima tese. E acabou sendo.

"Chris saca a deflagração de um movimento que, no final do século, misturado com os Cantos de Homero, sem saber se era música-cinema-teatro-ação política, científica, poesia, prosa, erudita, popular, landita, nacional ou estrangeira, antiga, moderna ou brasileira, veio à tona, comeu de tudo que o mundo oferecia e fez o eterno retorno ao primitivo, mas tecnizando-o, manifestando-se sincronicamente, sem prévia combinação, neste movimento da nova cultura política balançando os quadris chamada Tropicália", escreveu Zé Celso Martinez Corrêa.

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