E ele, enfim, se calou

Mas sua retórica messiânica persiste por estas bandas de realismo fantástico, avalia embaixador

Marcos Azambuja,

09 de março de 2013 | 16h25

Com a morte de Hugo Chávez o mundo da política e o mundo do espetáculo perdem, ao mesmo tempo, um grande ator. Para os latino-americanos desaparece a mais recente encarnação de um antigo modelo. Em Hugo Chávez, mais uma vez nesta nossa região, o nacionalismo, o populismo, o antiamericanismo sistêmico e a retórica messiânica encontraram um intérprete com a eloquência, o carisma e a capacidade de comunicação direta com o povo que são a marca registrada de um tipo de liderança que faz muito tempo e com certa regularidade aflora entre nós. Assim foi com Perón e Evita, com Allende, com Fidel e agora, na ultima fornada, com Evo, Lugo, Cristina e Rafael Correa - todos, embora com variações de temperamento e as particularidades de seus países de origem, farinha do mesmo saco.

Costumam ser - como foi o caso de Chávez - beneficiários da herança tóxica de governos anteriores marcados pela corrupção e pela incompetência e que não tiveram sequer o talento que sobra nesses líderes de saber criar, enquanto a maré está cheia e os ventos favoráveis, relações intensas de sedução com as grandes massas de excluídos.

Passado o som e a fúria da passagem desses líderes pelo poder e quando emagrecem as vacas, descobre-se que fizeram bem menos do que prometeram e que, em muitos casos, conseguiram desviar o foco, as energias e os recursos de seus países para um processo que não era sustentável.

O modelo Hugo Chávez interessa ainda por sua busca de uma legitimidade com raízes na história e pela tentativa de implantar uma identidade supranacional representada pelo modelo "bolivariano" e pelo resgate do Libertador não como figura emblemática do passado, mas como exemplo de ação e visão de permanente atualidade. A autópsia que mandou fazer nos restos de Bolívar na busca de provas - quase dois séculos depois de sua morte - de um muito improvável envenenamento é daqueles momentos em que a realidade destas bandas supera a imaginação dos grandes autores do realismo mágico.

Além da legitimação histórica, Chávez procurou encontrar afinidades bem longe dos espaços da América do Sul e foi buscar até no Irã de Ahmadinejad temerários pontos de convergência e uma causa compartilhada de resistência às maquinações de Washington.

Outro aspecto que faz Chávez objeto de interesse especial foi seu talento em usar o princípio central da democracia - o respeito ao voto popular - como instrumento de perpetuação no poder e como argumento para negar direitos minoritários e solapar o princípio da alternância dos partidos e das pessoas no comando do Estado. Na Venezuela de Chávez como nas outras democracias incompletas da nossa vizinhança aparecem traços comuns: o culto à personalidade e as manobras para perpetuação do líder no poder, as tentativas de reformas constitucionais para reforçar a ascendência do Executivo e procurar o esvaziamento do Judiciário; o combate à grande imprensa e às grandes empresas em mãos privadas como expressão de interesses antinacionais.

Não se deve ver Chávez apenas em sua dimensão teatral. O apoio que recebeu em vida e as homenagens que recebe agora depois da morte indicam que foi mais relevante do que se imagina e que o seu estilo perdurará entranhado no tecido da vida política venezuelana e dos países vizinhos.

Com a cadeira presidencial ancorada em imensas reservas de petróleo e governando em um período em que a valorização daquele combustível foi constante e se manteve em patamares muito altos, Chávez teve pano de onde cortar para realizar uma política de assistência social e redistribuição de renda que, em não pequena medida, mudou o panorama das divisões de classe em seu país e contribuiu para que ele mantivesse elevados índices de popularidade.

Nas últimas semanas, sobretudo, mas já ao longo dos dois anos de sua corajosa luta contra o câncer, era possível observar como o culto a Chávez ia adquirindo alguns dos contornos de uma devoção religiosa popular - fenômeno para o qual não faltam precedentes na America Latina, especialmente no caso de Eva Perón, verdadeiramente sacralizada na tradição "justicialista" argentina. Chávez parece que vai pelo mesmo caminho, como se uma longa agonia fosse um ingrediente essencial à elevação do patamar de reverência por sua obra e daqui em diante pela sua memória.

Ao acentuar alguns dos elementos mais folclóricos de Chávez e ao recordar passagens de verdadeiro humor em sua atuação política, não posso esquecer o momento em que, falando depois de George W. Bush na Assembleia Geral das Nações Unidas, disse que daquele mesmo lugar havia falado na véspera ao plenário o próprio demônio e que ainda sentia o cheiro de enxofre que havia deixado na tribuna o presidente americano. Depois de uma invasão fraudulenta do Iraque, do engodo das armas iraquianas de destruição em massa e das arrogâncias do unilateralismo a irreverência, a fala não era de todo descabida.

O desejo do rei da Espanha de que Chávez se calasse em uma reunião em que não parecia possível trazê-lo à ordem foi finalmente atendido. Chávez não é mais uma voz ativa na cena mundial, mas as circunstâncias de seu desaparecimento me fazem acreditar que será sempre complicado calar Hugo Chávez, que, como ele sempre sonhara, talvez ocupe na história de seu país e por bom tempo um papel apenas inferior ao de seu mentor Simon Bolívar, que acabou seus dias desencantado com a sua obra, com a própria Venezuela e disposto a partir, arruinado de saúde e de fundos, de uma América que tanto o decepcionara.

MARCOS AZAMBUJA É EMBAIXADOR, EX-CHEFE DA DELEGAÇÃO DO BRASIL PARA ASSUNTOS DE DESARMAMENTO E CONSELHEIRO DO CENTRO

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