E Evandro apagou a luz

Com o fim da versão impressa do ‘Jornal do Brasil’, o fotógrafo do flagrante pede demissão

Márcia Vieira, de O Estado de S. Paulo,

04 de setembro de 2010 | 13h17

Não houve choro nem estardalhaço. Mas a pressão embalada em frases do tipo "Pensa bem, aqui você tem liberdade, melhor ficar" só serviram para alimentar a angústia. O sofrimento em decidir o futuro se manifestou de maneira devastadora no fotógrafo Evandro Teixeira, 73 anos. Uma dor de barriga o deixou nocauteado por uma semana. Só passou quando tomou a decisão mais difícil da carreira: pedir demissão do Jornal do Brasil depois de um "casamento feliz" de 47 anos. Desde que o empresário Nelson Tanure anunciou o fim da edição impressa do JB, sufocado em dívidas, uma pergunta martelava a cabeça de Evandro. "O que é que eu faço agora?" Nada contra a era digital - o JB tem agora apenas a versão online. Difícil era continuar vendo o jornal, que já foi um dos maiores do País, se esfarelando.

 

 

No Hotel Carrera, ele virou amigo de infância de uma paulista, casada com um militar chileno. Por ela soube que Neruda, muito doente, tinha sido levado da sua casa na Isla Negra para o hospital Santa Maria. Procurou o diretor do lugar usando o nome da brasileira. "Ele não me deixou ver Neruda, mas me passava os boletins médicos. Às 10h da noite no dia 30 de setembro soube que Neruda estava morto. No dia seguinte, às 6h da manhã, eu me piquei para lá. Entrei por uma portinha lateral e vi o corpo do Neruda com Matilda, a mulher, ao lado". Evandro se apresentou como o fotógrafo que esteve na casa de Jorge Amado. "Meu filho, Jorge era nosso irmão. Seja bem-vindo", retribuiu a viúva. Evandro fotografou o corpo do poeta sendo arrumado para o velório e acompanhou o caixão até Isla Negra. De lá saiu com o cortejo até o cemitério. Era o único fotógrafo.

 

"O caixão saiu coberto pela bandeira do Chile. No caminho foi chegando gente. Todo mundo cantava a Internacional e o Exército cercava o cortejo para atacar. Mas os militares recuaram. Quando o caixão chegou ao cemitério, aquelas pessoas começaram a declamar os poemas de Neruda. Eu chorava e fotografava. Foi um dos momentos mais importantes da minha vida".

 

No Chile, fez fotos de presos políticos no porão do Estádio Nacional. "Eu usava uma Leica. Ela ficava dentro da camisa com uma lente angular pequena, que não chama atenção." Apesar dessas fotos históricas, Evandro gosta é de fotografar gente comum. Sua imagem predileta é o registro de um casamento em Paraty, em 1979. "Gosto do povo brasileiro. Principalmente do Nordeste. No Sul eu não fico muito à vontade".

 

Época de ouro. Evandro é baiano de Irajuba. Filho de fazendeiros, nunca subiu em um cavalo. Já na adolescência, seu negócio era fotografar. Estudou com Nestor Rocha, tio do cineasta Glauber Rocha, em Jequié (BA). Em Salvador, continuou estudando com José Medeiros, que por 15 anos foi fotógrafo da revista O Cruzeiro. Aos 18 anos foi para o Rio. Seis anos depois entrava para o Jornal do Brasil, onde trabalhava a elite da fotografia. "Era a época de ouro. Fretei avião para fazer matérias. Cobri mais de dez Copas do Mundo. Foi o ambiente do JB que me transformou no fotógrafo que sou".

 

Lamenta a sucessão de desacertos que levou o JB a um crise financeira que provocou o fim da edição impressa aos 119 anos. Na verdade, acha que o jornal deixou de ser o velho JB quando, em 2001, a marca foi arrendada para o empresário Tanure. A redação se mudou do prédio da Avenida Brasil 500 para o Rio Comprido. "Não era mais aquela coisa grandiosa. Mas a gente ainda tinha esperança de que o jornal voltasse a ser o que era".

 

Mas Evandro não é de se lamuriar. No final do mês lança um livro encomendado pela ONG Visão Mundial com fotos do Norte e Nordeste. Já tem farto material para outro, sobre moradias brasileiras. Tem corrido o País com palestras em universidades. Em outubro parte com o primeiro grupo para um workshop de fotografia em Canudos. "Minha vida é fotografar. Sem ser cabotino, acho que fiz um belo trabalho para a fotografia no Brasil". Para provar, encontra, depois de algum esforço, uma revista italiana. São 92 páginas com perfis de grandes brasileiros: Oscar Niemeyer, Ivo Pitanguy, Ayrton Senna, Pelé, Chico Buarque, Vinícius de Moraes e Evandro Teixeira, "o maestro do fotojornalismo que mostra o esplendor e a mistura em preto e branco de um povo colorido".

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