E havia o lado sombrio do Velho Guerreiro...

O apresentador foi apontado, nos anos 70, como um praticante do 'jabaculê'

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

30 Outubro 2009 | 00h00

Foi Chacrinha o inventor do jabaculê? Bom, essa resposta você não vai achar nessa cinebiografia do Velho Guerreiro. Mas se não foi Chacrinha o pioneiro, foi ele quem elevou o jabaculê (ou jabá, como é mais conhecido) a um nível sofisticadíssimo. Quem denunciou isso não foi um aventureiro nem um denunciante anônimo. Foi André Midani, nos anos 1970, quando era então um poderoso executivo da indústria fonográfica.

Mas o que é jabaculê? "Dinheiro com que se compra um jogador para que se deixe vencer, suborno", diz o Dicionário Houaiss. Segundo o pesquisador e sambista Nei Lopes, é uma palavra de origem banta que significa "molhar a mão, subornar". André Midani denunciou o jabá do Cassino do Chacrinha em 1978, quando era da Warner em 1978 e procurou o programa do Chacrinha para lançar Baby e Pepeu Gomes, ex-integrantes dos Novos Baianos. Foi quando lhe dissseram que, se não pagasse, os artistas não apareceriam no programa.

"Mas ele não inventou esse esquema, não! Que eu saiba, a invenção é bem anterior a ele. O jabá sempre existiu. Não se pode atribuir ao Chacrinha essa responsabilidade", disse Midani esta semana ao Estado . Na época, Midani reclamou publicamente do jabaculê do Chacrinha, o que provocou o rompimento entre os dois.

Midani conta que o rompimento durou 10 meses. "Cada um fez um gesto simbólico de reconciliação. Fizemos as pazes ao vivo. Ele me convidou para ir ao Cassino do Chacrinha e me entregou um troféu que tinha inventado", lembra. Midani não demoniza Chacrinha pelo esquema. "Toda pessoa tem seus lados bons e seus lados menos bons, virtudes e vicissitudes. Dentro daquele folclore dele, o Chacrinha tinha um sentido apurado do que era comercial e do que era artisticamente importante, e isso você não vê mais hoje."

Para André Midani, todos os grandes nomes de sucesso no Brasil pagaram jabá para consolidar suas carreiras. "É uma perversão do mercado. Mas você sabe tanto quanto eu o quanto Chacrinha foi revolucionário. Tinha um sentido cômico, artístico e comercial que era único." Assim como os artistas pagam, os programas cobram, e aí se incluem desde talk-shows famosos quanto aparições em reality shows de grande repercussão.

Midani abandonou a carreira no mundo discográfico há sete anos e diz que não pode mais determinar como se transmutou o pagamento dessas "taxas" no atual mundo do show biz. Mas lembrou, em entrevistas e em seu livro de memórias, que o jabá preponderou até o governo de Fernando Henrique Cardoso (época em que o custo de lançar uma música no rádio norte-americano era de US$ 300 mil por canção, enquanto no rádio brasileiro era de R$ 80 mil a R$ 100 mil).

O esquema funcionou da seguinte maneira nas gravadoras: quando a verba publicitária era de 5% das vendas de discos, programas como os do Chacrinha cobravam 10%. Até sete anos atrás, o jabá podia comer até 70% dos orçamentos publicitários das empresas, que variavam entre 12% e 16%. Nas emissoras de rádio, era comum que os próprios proprietários das empresas se ocupassem da cobrança do "jabá" para tocar determinados artistas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.