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É o ajuste externo

O bom resultado da balança comercial é consequência de um fator inegavelmente negativo: a forte recessão que reduziu o consumo

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2016 | 21h00

Os resultados da balança comercial de abril foram melhores do que os esperados e reforçam a percepção de que podem ser excelente apoio para a recuperação da economia num provável governo Temer.

O superávit acumulado até abril, em 2016, chegou aos US$ 13,2 bilhões, e é crescente, o que sugere que o resultado do ano possa até mesmo chegar aos US$ 55 bilhões. A última projeção do Banco Central é de um saldo positivo no ano de US$ 40 bilhões, mas o mercado já está trabalhando com US$ 48 bilhões, como a Pesquisa Focus apontou nessa segunda-feira. Dá para dizer que o ajuste externo é sólido e tende a se consolidar.

O bom resultado do ano acontece em consequência de um fator inegavelmente negativo: a forte recessão que reduziu o consumo. Na prática, o brasileiro reduziu suas compras e isso derrubou as importações e deixou mais excedentes para exportar.

Até abril, as importações do ano apontam uma queda de 32,2% em relação aos números do primeiro quadrimestre de 2015. Enquanto isso, as exportações também continuam mais fracas do que as do ano passado, embora em proporção menor, de 3,4%. 

Outra consequência da recessão é a queda da corrente de comércio, a soma de exportações e importações. Em relação à posição de há um ano, a redução é de 18,4%. Os fluxos de corrente de comércio são importantes não só para avaliar a participação do comércio exterior no PIB nacional, mas também para aferir o nível de utilização do transporte e dos terminais portuários.

Convém não exagerar o impacto desse bom comportamento do comércio exterior sobre o resto da economia. O Brasil continua sendo um país excessivamente fechado ao comércio exterior. As exportações mal ultrapassam os 10% do PIB. Precisariam crescer uma enormidade para ter peso maior sobre o produto final. O superávit ajuda na medida em que reduz substancialmente a necessidade de moeda estrangeira para enfrentar os compromissos externos, com importações e dívida em dólares.

É provável que esse bom desempenho, somado ao forte afluxo de capitais de investimento, ainda no primeiro trimestre de 2017 derrubem a zero o déficit em conta corrente (soma dos fluxos com moeda estrangeira, exceto capitais) que em dezembro era de US$ 59 bilhões.

Há no mundo uma abundância nunca vista de dólares à procura de aplicação. É o que pode ser identificado como janela de bonança, que pode ser bem aproveitada para alavancar o investimento no Brasil. Se as contas externas do País continuarem fulgurando aos olhos dos detentores globais de capital, será inevitável o maior afluxo de moeda estrangeira ao Brasil.

Se essa percepção estiver correta e os dólares aterrissarem por aqui, o governo brasileiro deverá ter o cuidado de evitar uma excessiva valorização do real (baixa do dólar) que coloque em risco a competitividade do setor produtivo, especialmente da indústria.

CONFIRA:

O gráfico mostra a quantas anda a utilização da capacidade instalada da indústria. Quem olha para esse filme entende, no ato, que tem muita máquina parada e muita instalação industrial subutilizada, fatores que dificultam a transferência dos custos fixos sobre o volume produzido.

Bom na recuperação

Esse fator negativo tem um lado bom. Em caso de retomada da atividade produtiva, basta comprar matéria-prima e, eventualmente, contratar mais gente para garantir o aumento da produção, sem necessidade imediata de mais investimentos.

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