É o jogo de egos

Os 27 países-membros da União Europeia começam a exercer sua unidade política com o breque de mão puxado. Aparentemente com medo de que os novos líderes eclipsassem seu estrelismo, os atuais dirigentes políticos nomearam para a presidência e para a chancelaria do grupo duas figuras burocráticas e inexpressivas, respectivamente o primeiro-ministro da Bélgica, Herman Van Rompuy, e a inglesa Catherine Ashton, atual comissária de Comércio do bloco.

Celso Ming, O Estadao de S.Paulo

21 de novembro de 2009 | 00h00

O candidato natural à presidência era o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, que, no entanto, foi vetado pelos chefes de Estado da França, Alemanha e Itália. Van Rompuy foi conduzido por unanimidade à presidência do bloco porque não fará sombra a nenhum figurão europeu. Depois nomearam Catherine Ashton à chancelaria aparentemente porque foi preciso dar uma compensação à Inglaterra pela rejeição sumária de Blair.

O resultado provável será uma relativamente boa administração das divergências entre os países sócios, mas vai ficar mais difícil contar com uma forte projeção da União Europeia no cenário internacional, onde se consolida o Grupo dos Dois (G-2), Estados Unidos e China, como principais potências geopolíticas, num momento em que o mundo precisa de pulso firme para enfrentar enormes desafios: a saída da grande crise; uma política sólida para enfrentar o aquecimento global; a redefinição do ordenamento econômico do mundo; e a adoção de uma regulação financeira abrangente e eficaz.

Os problemas comuns a serem enfrentados apenas dentro do bloco são também enormes. A economia europeia enfrenta um período de baixo crescimento e alto desemprego.

Para este ano, mesmo contando com o despejo de recursos orçamentários equivalentes a 5,0% do PIB, as projeções apontam uma retração da renda do bloco de pelo menos 3,8%. Se tudo correr bem, a atividade produtiva não crescerá mais do que 1,2% em 2010 e 2011. Enquanto isso, o desemprego, que hoje é de 9,7% (dado de setembro), conforme aponta a revista The Economist, deverá continuar crescendo. Hoje há 22 milhões de pessoas sem trabalho na área, número que tende a crescer em cerca de 50%, para 33 milhões, até 2011.

O problema demográfico é outro drama. A população local está diminuindo e ficando cada vez mais velha. O diário francês Le Monde avisou em sua edição de ontem que a população da Alemanha poderá cair de 82 milhões para 65 milhões (queda de 21%) nos próximos 50 anos porque o índice de natalidade está em apenas 1,4 filho por mulher e pode recuar ainda mais. A solução óbvia é recorrer à imigração. Mas a União Europeia inteira (e não só a Alemanha) teme os efeitos da bomba demográfica que o crescimento da população de origem estrangeira pode representar. Por isso não avança em direção a uma solução.

A disposição prevista no Tratado de Lisboa de que as principais autoridades políticas da União Europeia sejam nomeadas pelos chefes de Estado e não por voto popular tende a perpetuar a falta de legitimidade dos seus dirigentes e essa é outra limitação grave que conspira contra a obtenção de densidade geopolítica pelo bloco, de forma a fazer um indispensável contraponto à relação simbiótica entre Estados Unidos e China.

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