E olha só no que deu...

O diário do piloto que se viu vítima involuntária de um cipoal político-indígena e ficou oito dias preso numa aldeia ianomâmi

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2011 | 23h58

Segunda, 29 de maio. Dormi feito um anjo. Mas despertei sobressaltado quando o relógio tocou no horário de sempre, às 5 horas. Talvez porque minha mulher não estivesse ali ao lado e sim em Brasília, ajudando nos preparativos do casamento de nossa filha mais velha. O vazio de sua ausência me jogou num ligeiro oco existencial. Onde estou? Que dia é hoje? O que tenho pra fazer? Quem sou eu? Sentei na beirada da cama, busquei alguma familiaridade nas paredes do quarto e então repeti para mim mesmo: "Eu sou o Tarso de Souza Cruz. Eu tenho 57 anos. Eu piloto avião na Amazônia. Eu estou no meu sítio nos arredores de Boa Vista, em Roraima, e hoje tenho que levar uma carga de medicamentos e suprimentos para a reserva ianomâmi." Bastou para me reencontrar. Tomei meu café, comi uma tapioca e rumei para o hangar. Nessa época de chuva ficam lindos os buritizais ao longo da estrada, foi o que eu pensei ao virar a cabeça procurando acompanhar um casal de tucanos que voava baixinho.

Passava das 8 quando decolamos, eu, a carga e o pequeno Cessna 206. Ser piloto nessas paragens é ser capaz de operar em pistas curtas e esburacadas, remanescentes do auge do garimpo. Esta da aldeia Watorik, com quase um quilômetro, é uma exceção, e eu me senti feliz assim que a avistei lá de cima. Uma grande tripa marrom-esverdeada solta no meio do verde mais escuro da floresta. Pousei, taxiei e quando estacionei perto do posto médico da Funasa uns 30 índios pintados de preto e vermelho cercaram o avião. Eles gritavam. Pelos porretes que carregavam foi fácil perceber que aquilo não era um comitê de boas-vindas. Pensei em decolar novamente, mas fatalmente eu cortaria um ou mais deles com a hélice. Então desci.

Não senti medo. Eu já estivera diversas vezes ali e não era um estranho para eles, nem eles para mim. Só procurei não olhá-los nos olhos. Um, que parecia ser o chefe e era mais forte e mais alto que os demais, falou: "Chave! Dá chave!" Fiz que não entendi. Ele jogou meio corpo para dentro da cabine e tirou a chave do contato. Uma das duas enfermeiras do posto médico se aproximou e me disse que os índios reteriam a aeronave. Ah, grande novidade... Eu já tinha me dado conta disso, só desconhecia o motivo. Peguei a minha rede de dormir e acompanhei a enfermeira até o posto, de onde vi os índios amarrarem a hélice e as rodas com cipós.

Almocei arroz, farinha e um pássaro que não consegui identificar. Até que estava bom. Às 20h30 desligaram o gerador de energia. Tomei um banho frio, comi bolachas e fui dormir.

Terça, 30 de maio. Hoje ouvi no rádio do posto a voz do Davi Kopenawa, o líder ianomâmi que comanda a associação deles, a Hutukara, em Boa Vista. Ele explicou por que faziam aquilo comigo: era um protesto contra a nomeação de uma funcionária nova para a chefia do Distrito Sanitário Especial de Saúde Indígena Yanomami e Yekuna (DSEI-Y). Eles queriam outra pessoa, e ficaram muito bravos porque não foram ouvidos e porque o governo quis pôr no cargo uma apadrinhada do Romero Jucá, que eles odeiam. Por que eu devo pagar o pato, não faço ideia. O Davi mandou que caçassem comida pra mim, o que me confortou um pouco.

Resolvi avaliar a situação. Não os ianomâmis, que conheço desde 1984, quando comecei a voar para a terra deles. Andam todos nus. Os homens com a piroca pra cima, presa por uma fita amarrada em volta da cintura; as mulheres fazem o mingau de banana com a mesma mão com que acabaram de limpar a bunda do filho. Eu queria era estudar um jeito de fugir, e para isso eu precisava fazê-los se acostumar com a minha presença perto do avião. Fui até lá, eles se ouriçaram. Peguei a prancheta do plano de voo, fingi que a lia. Devolvi-a ao lugar, fechei o avião e voltei. Tenho que repetir isso várias vezes por dia.

Na hora do almoço (arroz, farinha e pássaro desconhecido de novo) chegou um índio que fala português. Ele tem o lado direito da cara inchado e reclama barbaridade de dor de dente. Como ontem, anteontem e quase todos os dias dessa época, choveu.

Quarta, 1º de junho. Hoje comecei a testar no avião as chaves que pego às escondidas de um quadro no ambulatório. Nenhuma delas é a do avião, mas achei que alguma poderia fazer o contato girar. A quarta que eu testei, uma bem velha e enferrujada, de cadeado, funcionou. Guardei-a comigo, no bolso da calça. Meu plano está andando.

À tarde, depois de um tremendo toró, chamei o índio da dor de dente e pedi que ele falasse ao chefe deles que a gente precisava virar o avião, porque na posição em que estava ele podia tombar com um pé de vento desses que prenunciam a chuva. Mentira, eu só queria virar a aeronave de frente para a pista. Os índios concordaram.

Ofereci dinheiro ao índio da dor de dente para ele me guiar até São Gabriel, no Alto Rio Negro. Uns três dias de viagem se déssemos sorte, incluindo caminhada dura na mata e um longo percurso de barco. Ele não quis. Eu senti raiva e disse a ele que os aviões com os dentistas não pousarão na aldeia até que me soltem. Que Deus me perdoe, porque eu faço questão de lembrá-lo disso toda vez que ele se queixa de dor.

Adormeci pensando no dia em que resolvi ser piloto. Eu devia ter uns 4 anos e a mãe adoeceu na fazenda de gado onde morávamos, no interior do Estado. O pai chamou um monomotor para levá-la à capital, eu fui junto e fiquei maravilhado. Botei na cabeça que queria dirigir aquilo. E olha só no que deu...

Quinta, 2 de junho. O dia mais tenso desde que cheguei. À tarde os índios se juntaram, se enfiaram na mata e desapareceram. Eu não tinha tempo a perder. Chamei as enfermeiras para que me ajudassem a desamarrar e empurrar o avião. Eu estava excitado com a chance real de dar no pé, mas uma delas teve uma crise de nervos. Começou a chorar, a berrar, que não faça isso, comandante, que vão nos matar, comandante, que não sei mais o quê, comandante. Abortei a fuga, saco!

Logo depois os índios retornaram e começaram a espalhar paus, pedras e até um freezer velho na pista. Eles tinham ouvido no rádio da maloca, que fica a uns mil metros do posto médico, que a Polícia Federal e o Exército viriam me resgatar. Por isso decidiram interditar a pista. Isso me deixou muito desanimado. Agora é que não saio daqui.

Pela primeira vez falei pelo rádio com o pessoal da firma de táxi aéreo onde eu trabalho. Pedi que dissessem a minha mulher e a meus três filhos que estou bem. Achei melhor não comentar por enquanto sobre minha muito provável ausência no casamento daqui a dois dias.

Os índios trouxeram piabinhas para o jantar, mas eu quase não comi. Me embrulhava o estômago pensar na oportunidade que a enfermeira nervosa me fez perder. Não posso contar com ela. Seu pavor é tão grande que ela é bem capaz de denunciar os meus propósitos. Droga!

Sexta, 3 de junho. Hoje não choveu. Mas como tempo continua fechado o painel solar não carrega a bateria do rádio da maloca deles. Isso me deu uma ideia, para amanhã. A outra enfermeira, sempre calada, veio me oferecer uma camiseta limpa. Decerto se incomoda com o meu fedor. Eu tomo banho todos os dias, só que sou obrigado a vestir a mesma roupa, não tenho outra. A camiseta não me passou nem pelo pescoço, muito pequena. Continuo fedido.

Sábado, 4 de junho. Acordei sentindo uma profunda tristeza. Às 11h a minha primeira filha vai se casar e eu não entrarei com ela na igreja. Meu filho chamou no rádio, de Brasília, querendo saber se era melhor adiar a cerimônia. Eu disse que de jeito nenhum, que eles seguissem o planejado e que Deus abençoasse os noivos. Fiquei pensando se um dia terei a felicidade de fazer aviõezinhos de palha de buriti pros netos que virão. Olhei ao meu redor, caí na real e fiquei arrasado.

De alguma forma, porém, esse sentimento meu deu força para pôr em prática aquela ideia. Chamei o índio da dor de dente e inventei outra história: se eu não ligasse o motor do avião, a bateria arriaria como a do rádio deles. O chefe permitiu, com a condição de que o avião continuasse amarrado. Eu disse que tudo bem, mas naquela posição o vento produzido pela hélice destelharia um barracão próximo onde eles guardam apetrechos para produzir de mel. Com isso, consegui virar mais um pouco o Cessna, que ficou na posição ideal para eu escapulir. Agora vai.

Domingo, 5 de junho. Usei a manhã para remover os troncos que interrompiam a pista. Os índios já não ligam para a minha presença ali. E quando eles não estão olhando eu arrasto tocos e pedras para longe. Até o freezer eu já tirei do caminho. Falei para o índio da dor de dente que era naquela água parada ali dentro que o mosquito da malária punha o ovo. Ele arregalou uns olhos deste tamanho e nós tombamos o freezer para a beira da pista. Sem me sentir seguro do que fazer, pedi que Deus me enviasse um sinal. Ele enviou um índio novo, que disparou uma flecha no pneu do avião. Acertou na roda de metal, não na borracha. O danado veio, fez somente isso e foi embora. "É o teu sinal, Tarso. Te manda", eu pensei. Tinha que ser naquela noite.

Segunda, 6 de junho. Sem pregar os olhos durante toda a madrugada, por volta das 4h, ainda na rede, orei: "Querido Deus, que seja o que o Senhor quiser. Se for o meu fim, permita que seja rápido e indolor, quem sabe com uma explosão ou com uma flechada certeira". Então levantei e a enfermeira nervosa levantou junto. Cheguei bem perto e sussurrei ao pé do ouvido dela: "Olha, eu vou fugir agora. Se a senhora tiver um ataque desta vez eles vão ouvir e vão me matar. A senhora está preparada para ser responsável pela minha morte?" Ela respondeu que eu podia ir tranquilo, pois, desconfiada dos meus movimentos nos últimos dias, já tinha tomado um calmante.

Desamarrei o avião sem uma gota de saliva na boca. Voltei ao posto e tomei um copo d"água. Retornei ao avião. Só quando passei o cinto de segurança me dei conta do nevoeiro cobrindo tudo. Sem referências visuais eu rapidamente fiz umas contas: como eu tinha limpado apenas 250 metros da pista, teria de decolar com 60 nós de velocidade. Muito pouco. Normalmente tiramos um monomotor do chão com 90 nós. Mas era o que tinha. Pus o bicho em movimento já com metade da potência do motor, ultrapassei com certa facilidade um trecho bem enlameado, fiz a curva na cabeceira, joguei mais potência e decolei. Não vi nada. Nem índio, nem enfermeira, nem pista, nada. Quando ultrapassei o nevoeiro, nivelei a aeronave e avisei a torre de controle em Boa Vista: "Aqui é o comandante Tarso. Acabo de escapar da reserva ianomâmi. Estou voltando para casa." O vermelhão do alvorecer estava lindo de morrer.

Deviam ser umas 7h quando pousei na capital. Tinha um bocado de gente me esperando, incluindo a PF e a Abin, para colher meu depoimento. Só consegui chegar em casa às 9 da noite e, ao entrar, me espantei com o cheiro do bolor. Estava tudo fechado havia oito dias. Tomei um banho quente e finalmente vesti uma cueca limpa. Deixei meu corpo tenso cair na cama, onde minha mulher ainda não estava, e adormeci. Acho que sonhei. Deus estava do meu lado, em carne e osso, me garantindo que eu farei, sim, os aviõezinhos de buriti pros netos e que nunca mais terei de voar praquelas bandas.

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