É possível reformular a CBF

Para economista, pode ser a hora de governo, Legislativo e clubes unirem-se para mudar as regras de representação do Brasil na Fifa

ELENA LANDAU , O Estado de S.Paulo

17 Março 2012 | 19h22

Alvíssaras! Ricardo Teixeira não é mais presidente da CBF. Mídia social, jornalistas esportivos, jogadores e amantes do futebol celebraram nesses dias sua queda.

Lamento apenas que o afastamento tenha sido voluntário e não imposto. A decisão de Teixeira foi obviamente decorrente da perda de apoio do maior aliado, a Fifa, e da pressão da presidente Dilma por meio das investigações da Polícia Federal. Se esses dois atores não tivessem, por motivos distintos, resolvido tirar o apoio institucional ao até então todo-poderoso do futebol brasileiro, ele ainda ficaria no comando por muito tempo. E esse é o grande problema da CBF: ela se acha intocável. Faz o que quer, como quer e nunca dá satisfação. Pelo menos foi assim até hoje. O fim da era Teixeira é significativo, pois mostra os limites dessa presunção. De agora em diante, ainda que as regras não mudem, a CBF deve explicações aos brasileiros.

Sendo uma entidade autônoma com regras próprias, é praticamente impossível uma intervenção na sua administração. Governa com apoio das federações estaduais num sistema arcaico de representação "federativa". Os clubes nunca ousaram participar ativamente, muitos deles por medo da fúria vingativa do ex-presidente. A eles foi imposta a necessidade da profissionalização - nem sempre com sucesso -, mas federações e a CBF continuam tão arcaicas quanto sempre foram.

Aproveitemos o momento, juntando a crise da CBF com a Copa, para mudar. Os que defendem sua atual estrutura somam alguns importantes resultados, no campo, à transformação financeira da CBF em empresa lucrativa em decorrência da valorização da marca da seleção brasileira. De fato, são resultados positivos. Então, por que a celebração nacional pelo afastamento de Teixeira?

Basta lembrar os vexames nas últimas Copas, em especial, a desorganização e falta de profissionalismo fora de campo; a contratação de técnicos menos por sua qualidade e mais por sua submissão ao presidente da CBF, que se traduziu em escalações tecnicamente inexplicáveis; e amistosos humilhantes para aquele que já foi o melhor futebol do mundo. Sem esquecer da manutenção de uma comissão de arbitragem de péssima qualidade que desmoraliza o Campeonato Brasileiro e prejudica os clubes. E o sucesso financeiro da CBF não é mérito de Ricardo Teixeira, que apenas surfou na onda mundial de valorização comercial do esporte. Não podemos esquecer ainda o homem de personalidade arrogante que, sempre que questionado sobre a falta de transparência das contas da entidade, dava de ombros e dizia tratar-se de uma empresa privada.

Acho difícil aceitar que uma entidade que comanda um dos elementos culturais mais importantes do País não seja "pública", e com isso não quero dizer de forma alguma uma empresa estatal.

A CBF tem que dar satisfações aos brasileiros. Pode ser privada, mas tem que ter suas contas públicas e auditadas. A situação é absurda: ela vive à custa do amor do brasileiro pela seleção canarinho, vende espaço nas camisas verde-amarelas para patrocinadores, usa os símbolos nacionais nos eventos, mas se recusa a dar transparência a suas contas e não paga um tostão ao povo brasileiro na forma de royalties. Foi preciso que a Polícia Federal rompesse a blindagem da CBF porque nenhuma instituição no Brasil, nem Ministério dos Esportes nem uma agência reguladora, tem legitimidade para fiscalizar a Confederação. Mas é preciso deixar claro que de nada vai adiantar a queda de Ricardo Teixeira se seus sucessores mantiverem as mesmas práticas, o que é muito provável com a presidência da CBF com José Maria Marin. Por isso, todos os amantes do futebol, além dos clubes e o próprio governo, não podem deixar esse momento passar em branco e devem pressionar a CBF a rever seu estatuto e suas regras de representação e governança.

O imbróglio CBF, Fifa e governo brasileiro em relação à preparação da Copa 2014 mostra a confusão que isso causa. Quem dita as regras, quem define os locais dos jogos? Fifa e CBF unidas estabelecem os critérios. O País aceita ou não. São entidades privadas que buscam lucros, mas não colocam um real sequer na organização do evento. Se a escolha das cidades-sede, baseada em critérios políticos da CBF, se mostrar economicamente equivocada, o problema vai parar no colo do governo e dos contribuintes brasileiros. Fácil ser empresa privada e lucrativa assim, não?

A CBF não teria tanto poder não fossem as regras da Fifa que admitem um único representante por país na entidade internacional. No entanto, não há critérios para a escolha desse representante. A CBF nasceu com esse poder, sem licitação e sem competição. Os clubes, se quiserem participar de torneios da Fifa, como a Taça Libertadores, não podem se rebelar contra a CBF.

Temos agora uma oportunidade única para que governo, Legislativo e os clubes de futebol se unam para mudar as regras da entidade que representa o futebol brasileiro, ou criar uma entidade que possa competir com a CBF pela representação do Brasil junto à Fifa. É possível mudar, basta querer.

ELENA LANDAU É ECONOMISTA E ADVOGADA

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