''É preciso pagar pelo capital natural''

Com olhar de executivo, Álvaro de Souza, da WWF Brasil, adverte: o gasto da natureza tem de entrar nos custos das empresas

Sonia Racy, O Estadao de S.Paulo

30 de novembro de 2009 | 00h00

Depois de dizerem que não iriam fixar metas, tanto Obama como o líder chinês Hun Tao mudaram de ideia semana passada. Primeiro foi a Casa Branca que prometeu reduzir em 17% suas emissões de carbono até 2020, em comparação com o que emitiam em 2005. Um dia depois, a China bateu o martelo em uma redução entre 40% a e 45% "por unidade de PIB". No Brasil, a meta fixada é dúbia. Significa um aumento real de emissão até 2020 - só que 38.9% menor que o projetado a partir do crescimento imaginado nas planilhas. É a mesma coisa que um gordo, imaginando que vá ganhar 20 quilos, se limite a engordar somente dez.

Para falar sobre o assunto, a coluna convidou Álvaro de Souza, ex-presidente do Citi no Brasil e ex-vice do Citi mundial, hoje à frente do World Wildlife Fund Brasil, braço autônomo da WWF. "Somos uma rede de conservação ambiental, não de preservação ambiental. Parece jogo de palavras mas não é", explica o executivo. Preservação, esclarece, é deixar a natureza intocada. Conservação é o homem se educar para usar a natureza em seu benefício.

Da vida no sistema financeiro para o meio ambiente? "Quando larguei a rotina de executivo, decidi doar um pedaço do meu tempo à comunidade. Optei pela educação mas me frustrei porque não consegui realizar nada tangível. Vim então para o meio ambiente". Como uniu as duas experiências? "Agrego valor dentro da teoria de que enquanto o consumo desbragado dos recursos naturais não estiver na contabilidade das empresas, essa batalha dificilmente será vencida." Vão aqui trechos da conversa:

Estão dizendo que Copenhague, mesmo com o avanço das posições da China e de Obama, vai dar em nada. É isso mesmo? Não acho. Acredito que a situação mudou. Com estes dois países , os grandes poluidores, prometendo chegar com metas definidas, outros vão seguir o exemplo. Mas, que fique claro: só os EUA estão levando metas de redução. A China prometeu reduzir com base em cada ponto porcentual de crescimento. Isto é, não promete redução em relação a anos anteriores. O Brasil também não promete redução em relação ao passado, e sim sobre a futura emissão de gases.

E a reunião em Kioto em 2011? Copenhague é a preparação dela. Em Copenhague é que vão se definir os termos da revisão a ser feita no Tratado de Kioto.

De onde vem a maior poluição no Brasil? 62% da emissão brasileira se devem ao desmatamento. É queima de árvore. Por isso somos o quarto maior emissor. Não fossem as queimadas, seríamos o oitavo ou nono.

Quanto é a proporção de poluição da China e Estados Unidos no mundo? Juntos eles representam quase 40% da emissão mundial. Quando você pega por habitante, o índice dos EUA é quase 20 vezes maior que o do resto do mundo. E a emissão por habitante da China, com seus 2 bilhões de pessoas, é outro número.

Então, sem os EUA não se faz nada. É isso mesmo. Nada.

Obama tem condições de fazer cair a ficha do Congresso a respeito disso? Acredito que sim, em função de pressões da sociedade americana. Veja o (Arnold) Schwarzenegger. Ele é republicano, do partido mais resistente ao tema. E a ficha caiu por lá. E mais ou menos como está acontecendo aqui. Até a Marina Silva virar pré-candidata, a conservação era assunto do Ministério do Meio Ambiente. Agora, todo mundo fala do tema. Desde Serra, que nunca tinha falado nada, até a candidata Dilma.

Na sua percepção, os três candidatos, Dilma, Serra e Aécio, têm alguma sensibilidade para o meio-ambiente? O que posso dizer é que o que o Serra botou aqui em São Paulo tem muito mais conexão com a realidade do aquecimento global do que o que se discute no nível federal. Serra fez um documento usando números de 1995, fez uma coisa como manda o figurino. Do Aécio, não vi nada ainda não.

Como fazer o adulto se preocupar com 2050? Tem gente dizendo: eu nem vou estar mais aí... A batalha dos adultos de hoje, em termos de conscientização, está ganha. A tarefa de passar à ação é para a garotada que está vindo por aí. Por exemplo, o WWF se empenha mais em educar as mães do que os pais. Porque as mães é que educam os filhos.

Um processo irreversível, não? Mas que exige iniciativas práticas... Sim, é irreversível. E algumas coisas estão acontecendo. Veja o que ocorre no caso do comércio de madeira no Estado de São Paulo. A madeira ilegal, na ponta do consumidor, custa hoje só 9% mais que a legal. Já foi 35%. E por quê? Porque há controles, não tem mercado para o produto ilegal.

Mas por que a madeira legal custa esses 9% a mais? Porque ela tem a certificação, e esta tem um custo. Mas os preços tendem a se aproximar, por isso digo que o processo é irreversível. E a madeira ilegal tende a sumir. Veja o exemplo da Kimberly Clark, que vende lenços de papel nos EUA. Eles não foram cobrar da empresa que produz o papel. Foram na que produz o eucalipto que fará a celulose que vai fazer o papel.

Ou seja, a coisa se define quando há uma equação econômica viável, não? Tem uma teoria que não é nova, existe há uns 15 anos, que diz: o capital natural, consumido pelas indústrias, não está na contabilidade das empresas.

Explique. Você compra matéria-prima. Exemplo da celulose. A Aracruz produz, a Suzano compra, produz o papel. Tá na contabilidade. Mas pergunto: a água utilizada está na contabilidade? E o ar usado na White Martins, está? A solução é precificar os serviços naturais. Temos de encarar uma teoria de capital natural, que é tão real quanto capital humano, capital financeiro ou imobilizado.

Como isso vai ser levado à prática? Vai demorar uma geração, mas vai acontecer. No fundo, não estamos falando de salvar o planeta. Isso é uma bobagem, o planeta já sobreviveu à extinção de outras espécies dominantes. O que está sendo discutido é a sustentabilidade da nossa espécie. Hoje já estamos consumindo recursos naturais a um ritmo de 1,3 planeta - ou seja, 30% superior à sua capacidade de regeneração. É o chamado Living Planet Index, que mede a capacidade de restauração versus o que a gente consome.

Acha que a Terceira Guerra Mundial vai ser climática? Não acredito em Terceira Guerra Mundial. Se o maior poluidor, que são os EUA, saiu conscientemente -- ou não, sei lá - de um cara como o Bush para outro como o Obama... A direção é essa. Mas as tragédias naturais que a gente vê todo dia, tsunamis, inundação, seca, furacão... cada vez fica mais claro que estamos mudando. Quando Kioto começou a ser discutido, isso nem era visível. Agora está perto da gente.

Colaboração

Doris Bicudo doris.bicudo@grupoestado.com.br

Gabriel Manzano Filho gabriel.manzanofilho@grupoestado.com.br

Pedro Venceslau pedro.venceslau@grupoestado.com.br

Marilia Neustein marilia.neustein@grupoestado.com.br

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