É preciso ''sentir'' Chanel, para fazer um filme sobre ela

Diretora Anne Fontaine se rendeu a uma grande personagem, mas fez um trabalho banal, embora muito bem 'vestido'

Crítica Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

30 Outubro 2009 | 00h00

Em Paris, em janeiro, num encontro com o repórter do Estado, a diretora Anne Fontaine confessou que seria a primeira a se admirar - a dizer que não - se antecipassem que ela terminaria realizando um filme sobre a célebre estilista Coco Chanel. Anne admitia não ser muito ligada em moda - não mais do que qualquer pessoa que queira estar em sintonia com a atualidade -, mas a biografia (autorizada) de Mademoiselle Chanel revelou-lhe uma personagem fascinante. Coco Antes de Chanel foi uma daquelas personagens pelas quais Anne Fontaine se sente atraída.

Veja trailer de Coco Antes de Chanel

Basta comparar com Lavagem a Seco e A Filha de Mônaco. Anne Fontaine ama os personagens transgressores, que chegam para confundir (e bagunçar). Coco Chanel começou a trabalhar com moda nas primeiras décadas do século passado. A primeira coisa que fez foi liberar as mulheres da silhueta conservadora que lhes era imposta (pelo uso do corselete). Ao liberar o físico, Chanel liberou também o pensamento. Amiga de Luchino Visconti e Jean Cocteau, foi incentivadora das artes. Seu império, ela o construiu criando roupas inspiradas no vestuário masculino para a mulher moderna.

Audrey Tautou tem o tipo meio andrógino que serve à representação de Chanel por Anne Fontaine. A estilista teve grandes amores com mulheres e homens, mas seria simplificador rotulá-la como "homossexual" (bissexual, talvez). Afinal, homens e mulheres jogam com papéis ambíguos nos filmes da diretora. Não tanto desta vez, pois Anne poupou-se a acrescentar escândalos ao filme (por pressão da Maison Chanel?). Coco Antes de Chanel é muito mais um conto de fadas, sobre como a menina pobre, a órfã que cria seus modelitos de dia e canta em cabarés à noite, alcança o sucesso. O filme descreve os encontros que mudaram sua vida, com Etienne Balsam e depois com um amigo dele, Boy Chapel, que, além de amante, estimulou a jovem Chanel a desenvolver seus projetos de chapéus, que foram o embrião da "maison". O filme é bem feito, bem "vestido", mas é curiosamente anódino. Ao contrário do que diz Anne Fontaine, ela não "sentiu" Chanel e seu filme se ressente disso.

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