É Proibido Fumar discute a culpa

Filme de Anna Muylaert fala do neopuritanismo atual e da cumplicidade amorosa de forma radical

Luiz Zanin Oricchio, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2009 | 00h00

Em sua primeira parte, É Proibido Fumar, de Anna Muylaert, parece uma comédia rasgada. Depois, muda de tom e a apreensão passa a ser o sentimento dominante, até que tudo se encaminhe para uma zona de pacificação. Uma quietude enganosa, como verá o espectador do filme, que estreia dia 4 em circuito comercial. Em seu segundo longa (o primeiro é o também excelente Durval Discos), Anna reafirma esse talento em conduzir o público por sentimentos contraditórios e guinadas bruscas. Traz de volta a Brasília aquela que, sem dúvida, está sendo a grande estrela do festival, a atriz Glória Pires.

Glória já havia participado da polêmica abertura do festival interpretando dona Lindu em Lula, O Filho do Brasil, de Fábio Barreto. Agora ela sai da pele de mãe do futuro presidente da República para entrar sem qualquer dificuldade na de Baby, modesta professora de violão, fumante compulsiva e apaixonada por um novo vizinho, Max (Paulo Miklos). Vamos dizer logo de saída: se o júri tiver um mínimo de juízo, o prêmio de atriz já está definido e vai para Glória Pires. E, talvez, o de ator fique bem com Paulo Miklos. Ambos formam um casal difícil de ser esquecido.

Glória foi elogiada por seu papel de uma mulher totalmente desglamourizada em É Proibido Fumar. "Eu não tenho dificuldade com a desglamourização. O trabalho foi de equipe. Da diretora, do maquiador, tudo em conjunto para compor esse visual." A atriz disse que tentou caracterizar Baby como uma pessoa parada no tempo, na adolescência, uma época cor de rosa, com pais vivos. "A partir daí, a gente foi buscando esses elementos e a personagem ficou assim. Ela é superfechada no mundo que criou."

Sobre a diferença entre as personagens de Baby e dona Lindu, Glória disse que são de fato mulheres diferentes, mas que se encontram na maneira como se entregam aos relacionamentos humanos: "Dona Lindu lutando para criar os filhos e Baby para refazer sua vida com Max."

Se dona Lindu vem da pobreza e do sertão com sua fileira de filhos, Baby vive no apartamento que herdou da mãe onde ensina violão a velhotas e garotos desinteressados. Max, o vizinho que se mudou para o apartamento ao lado, toca guitarra numa churrascaria. Ela fuma; ele, não. Ela é solteira; ele se separou de uma modelo, Estelinha, que define como problemática e temperamental, além de linda. Ela é ciumenta; ele acha que não há motivos para isso. A relação evolui, mas não na direção que se poderia prever.

Em É Proibido Fumar, Anna Muylaert reafirma-se como cineasta de sotaque paulistano. A cidade lá está, como impressão digital do filme, da mesma forma que estava em Durval Discos. E está, digamos assim, de maneira orgânica, e não de modo acessório como paisagem ou ornamentação. Impregna tudo, da maneira de falar da pessoas a um modo de vida, que é o da pequena classe média paulistana, que talvez já tenha conhecido tempos melhores. Todas essas referências compõem o tecido da narrativa, muito bem construída pelas imagens de Jacob Solitrenik e costurada pela montagem de Paulo Sacramento. O filme flui e você "entra" nele, como quem entra no apartamento de cômodos pequenos e atulhados de Baby. Esses espaços reduzidos, tão íntimos como claustrofóbicos, são explorados de maneira muito esperta pela câmera e pelos enquadramentos.

"Assumi uma forma de narrar que é metropolitana mesmo, de quem está com pressa. Tenho essa preocupação de mostrar São Paulo, uma vez que as histórias se passam ali", diz Anna Muylaert. Sobre a temática do filme, ela diz que tenta examinar esse nó do moralismo presente. "Estamos vivendo num mundo politicamente correto e o filme não é. A grande discussão que quis colocar é sobre a impunidade, a culpa, a escolha que todos podemos fazer, mesmo com um cadáver embaixo do tapete."

É Proibido Fumar entra na categoria daquele tipo de filme que, como as comédias italianas de Dino Risi e Mario Monicelli, diz muito mais do que parece à primeira vista. Entre risos e aflições, fala do neopuritanismo contemporâneo, propõe um dilema ético e elege a cumplicidade amorosa como valor absoluto neste mundo de intenso relativismo moral. Não é pouca coisa, não.

O repórter viajou a convite da organização do festival

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