É só a largada

Propostas dos candidatos são genéricas, mas já indicam tendências nas reformas

Cida Damasco, O Estado de S.Paulo

14 Maio 2018 | 05h00

A cinco meses das eleições, os candidatos à Presidência começam a dar as primeiras pistas de suas propostas para a economia. Pelo menos aqueles que parecem ter alguma musculatura para enfrentar a corrida até outubro. Os debates em torno de como conduzir a economia, a partir de 2019, têm como pano de fundo a perda de fôlego da retomada e a instabilidade no cenário externo, que já sacode a vizinha Argentina. Os mercados e os setores produtivos aguçam os ouvidos para identificar quem de fato dará continuidade a uma política econômica afinada com o liberalismo -- mais especificamente, quem resgatará a agenda de reformas, a começar pela Previdência. O público em geral, porém, ainda tem pela frente um período de preocupações com a recuperação de Neymar e a ausência de Daniel Alves na Copa, e certamente deixará mais para frente suas definições.

Com desculpas pelo trocadilho, claro que os candidatos têm sido econômicos nas suas manifestações, principalmente quando se trata de temas impopulares, como é o caso da reforma da Previdência. Até porque a experiência da última campanha mostra que não é bom negócio fazer promessas e ter de abandoná-las logo no começo do mandato, pagando o preço do estelionato eleitoral. Mas já é possível identificar tendências das principais candidaturas -- por enquanto tendências, é bom destacar. 

O tucano Geraldo Alckmin, que tem falado pela voz do coordenador do seu programa econômico, Persio Arida, ainda vive o dilema “ir ou não ir” com o MDB e, portanto, fechar ou não com a política econômica de Temer. Arida afirmou que a reforma da Previdência precisa ser aprovada no primeiro ano do governo e concentrou, em três pontos, o que Alckmin pretende fazer na economia: foco na infraestrutura e no agronegócio, abertura comercial e aumento da produtividade. Mas o que causou maior repercussão foi exatamente o que Alckmin não pretende fazer. Segundo o economista, no plano de privatizações do candidato, continua a Eletrobrás, mas não estão Petrobrás e Banco do Brasil, como defendem alguns liberais mais fervorosos. 

O pedetista Ciro Gomes, nesse momento pós-Joaquim Barbosa, está sob holofotes, por se mover com desenvoltura em busca de alianças, enquanto o PT, com Lula preso, continua imobilizado. Mas nem por isso ele esconde o jogo. Tem dito, por exemplo, que acabará com a reforma trabalhista que está aí, no dia seguinte de sua posse. Em entrevista ao Estadão, o coordenador de seu programa econômico, Mauro Benevides Filho, também sintetizou o que seria uma reforma da Previdência à moda de Ciro: salário mínimo para todos, independentemente de contribuição ou não, regime de repartição para uma faixa de até três salários mínimos, por exemplo, e daí para a frente regime de capitalização. Em outra frente polêmica, o coordenador do seu programa de governo, o economista Nelson Marconi, tem pregado com insistência um câmbio mais competitivo, em combinação com uma disciplina fiscal. Para ele, uma faixa razoável seria entre R$ 3,80 a R$ 4, o que foi visto por seus críticos como uma proposta de câmbio fixo ou de banda cambial. 

No caso de Marina Silva (Rede), a política econômica também demora a ser formatada, apesar da dupla parruda de formuladores que está com a candidata -- Eduardo Giannetti da Fonseca e André Lara Resende. Bem ao seu estilo, Marina é genérica, mas aponta para algumas mudanças na reforma trabalhista, a seu ver “desequilibrada”, feita por Temer “para se manter no poder” -- e na Previdência, limita-se a falar na compatibilização dos regimes privado e público e no piso do salário mínimo para as aposentadorias. Marina enumerou alguns princípios para uma reforma tributária, entre eles não aumentar a carga, ampliar a descentralização de recursos entre Estados e municípios e não provocar regressividade. 

Jair Bolsonaro (PSL), que tratou de antecipar o nome do seu guru econômico, o economista liberal Paulo Guedes, para abrir portas nos mercados e no setor empresarial, parece agora ter menos pressa para mostrar suas intenções na economia. Sobre reforma da Previdência, só disse que a sua não será a de Temer, e será remetida ao Congresso em etapas. Propostas mais detalhadas, de todas as candidaturas, estão à espera dos arranjos para consolidação das próprias candidaturas.

 

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