É tempo da ecológica safra de juta

Cultivada por ribeirinhos no Amazonas, a fibra vegetal é utilizada[br]sobretudo na fabricação de sacarias e sacolas

Niza Souza, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2008 | 01h58

A colheita de juta e malva, fibras vegetais usadas para confecção de fios, sacos e telas, terminou este mês. A produção da fibra, cultivada em regiões ribeirinhas no Baixo Amazonas, deve chegar a 14 mil toneladas nesta safra. Mas o setor, que já chegou a produzir quase 100 mil toneladas em 1981, espera retomar pelo menos parte do potencial nos próximos anos, em função do aumento da demanda, sobretudo por causa de seu apelo ecológico.O mercado de café sempre foi o termômetro para a indústria de sacaria de juta no Brasil, ainda mais depois que os produtos feitos à base da fibra natural perderam espaço para o plástico. A fibra mantém a umidade natural do grão, por isso o mercado exige que o café seja embalado em juta. Mas a preocupação cada vez maior, no mundo, com a preservação e conservação do meio ambiente está abrindo um novo mercado para os produtos à base da fibra: as sacolas de juta.CULTURA SOCIALAlém de ser uma fibra biodegradável, a juta é uma das principais atividades econômicas nas comunidades ribeirinhas no Baixo Amazonas e ajuda a manter mais de 10 mil famílias na zona rural, ou 50 mil pessoas. ''Chegamos a ter 27 empresas envolvidas no processo de industrialização de juta e malva, mas o plástico e outras tecnologias foram tomando o mercado e hoje há apenas três empresas no setor'', explica o agrônomo Arlindo de Oliveira Leão, secretário-executivo do Instituto de Fomento à Produção de Fibras Vegetais da Amazônia (Ifibram).A instituição, sem fins lucrativos, foi fundada em 1974 pelas empresas do setor para auxiliar na pesquisa e é responsável pela produção e distribuição das sementes da fibra. Com a recuperação de alguns mercados, o agrônomo acredita que a produção deve aumentar. ''Incentivamos os produtores a ampliar a área plantada e investir na produção de sementes'', diz. ''A sacola de juta retornável já está ganhando espaço e tem grande potencial.''Mesmo com poucas empresas, a demanda é maior do que a oferta e o setor importa fibra. Hoje, 40% da produção vai para a confecção de sacos de café; 25% para sacos de batata; 10% para sacaria de amendoim, cacau, castanha, fumo e minério; 15% para telas; 7% são fios (usados em molduras, tapetes, gesso e tecelagem) e 3% outros produtos (que incluem as sacolas). A meta da indústria é aumentar a produção, já em 2009, de 10% a 15%, em função das sacolas de juta.''No ano passado importamos 30% e, este ano, como a produção deve ser um pouco melhor, vamos importar em torno de 20% da matéria-prima'', diz o empresário Oscar Borges, presidente da Companhia Têxtil Castanhal (CTC), responsável por 60% da produção do setor. ''Nossa luta é pela produção de semente, que impede o crescimento do setor. Por isso estamos desenvolvendo um projeto e vamos tentar aumentar a área plantada de sementes'', diz Borges.Ao contrário do cultivo da fibra, que é feito nas várzeas dos rios no Amazonas, a produção de sementes é em terra firme, em Belém (PA), onde fica o Ifibram. ''O produtor de semente segue uma metodologia totalmente diferente do produtor de fibra'', explica Leão. ''O espaçamento para semente é maior, para a planta ramificar, pois a semente está nos ramos.''Para garantir a produção de sementes, o Ifibram faz parcerias com agricultores paraenses, que recebem assistência técnica e depois vendem toda a produção para o Ifibram. ''A semente de juta e malva é uma atividade complementar. Damos assistência, acompanhamos todos os produtores e depois beneficiamos a semente'', diz Leão. O Ifibram é registrado no Ministério da Agricultura como produtor de semente de juta e malva.O interesse de compradores internacionais por sacolas biodegradáveis também anima o setor. No mês passado, a CTC exportou 200 mil sacolinhas de juta para a rede italiana Yamamay, que está substituindo as sacolas de plástico. Esse novo mercado surgiu justamente pelo apelo ecológico da fibra. Todo o processo, da produção ao descarte do produto final, é ambientalmente correto.Como o plantio é feito na várzea, o produtor não usa adubo nem agrotóxicos. Na indústria, os processos de fabricação (amaciamento, limpeza, lubrificação e engomamento) usam produtos de origem vegetal. Até a pintura dos sacos leva tinta à base de água. ''Podemos dizer que é um processo limpo'', afirma o gerente da unidade Castanhal da CTC, Brenno Pacheco Borges Neto.A repórter viajou a convite da CTC

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