É tempo de dizer 'vá embora, Assad'

Não existe expectativa plausível de o próprio presidente sírio conduzir um processo de reformas que leve a sua saída do poder

P. J. Crowley, O Estado de S.Paulo

26 Junho 2011 | 00h25

Seis meses depois do início da Primavera Árabe, o governo Obama enfrenta dificuldades para acompanhar o ritmo dos acontecimentos e anunciar uma revisão da política regional. A administração tem apoiado amplamente a mudança, como a secretária de Estado, Hillary Clinton, afirmou em um discurso premonitório pronunciado no Catar, em janeiro. Mas ainda não sabe com clareza o que fazer e dizer em relação a determinados países.

Um funcionário da Casa Branca definiu a atual estratégia como "liderar dos bastidores", maneira curiosa, mas válida, de dizer que os Estados Unidos não controlam o desenrolar dos acontecimentos. Também poderia ser definida como liderar das sombras, porque muitas coisas são feitas e ditas longe dos olhos e dos ouvidos do público.

Mas esse enfoque diplomático ignora a atuação das redes sociais na Primavera Árabe. Os eventos são registrados em tempo real e abertamente. São revoluções genuínas, mas as mídias sociais funcionaram como aceleradores, permitindo que os protestos ultrapassassem as fronteiras, reduzindo o tempo de resposta dos governos, inclusive o dos EUA. Regimes paralisaram a internet (Egito) ou a mídia tradicional (Síria), na tentativa de calar as rebeliões, mas elas sobreviveram.

Seis meses atrás quase ninguém sabia, nem mesmo diplomatas americanos, da existência dessas redes reformistas. Agora, elas já constituem grupos de interesses políticos totalmente engajados que devem ser levados a sério. Considerando sua crescente conectividade e o conhecimento da situação, os manifestantes têm reivindicações específicas. Eles querem que os outros países escolham de que lado pretendem se colocar. Querem reconhecimento e apoio - e querem agora.

Aconteça o que acontecer nos próximos meses, Tunísia, Egito, Líbia, Iêmen e mesmo a Síria não serão mais os mesmos. Tampouco outros países que conseguiram conter ou cooptar os movimentos de protesto. E enquanto os EUA esperam que a região elabore um novo mapa, a hesitação apresenta enormes custos reais.

Dar pouca credibilidade agora pode se traduzir em redução de influência daqui em diante, caso essas transições sejam bem-sucedidas. As eleições realizadas desde o início da Primavera Árabe mostram escassas mudanças nas atitudes regionais em relação aos Estados Unidos. No Egito, embora os EUA nunca tenham pedido publicamente a renúncia do presidente Hosni Mubarak, Obama exerceu forte pressão nos bastidores. Mas a opinião pública egípcia dá pouco crédito aos EUA, ou mesmo nenhum. Em outros países, o governo americano é visto como não está fazendo o bastante (Bahrein) ou se excedendo (Arábia Saudita). Em parte isso era inevitável e é possível que essas atitudes mudem com o tempo, mas até o momento não se vê o "novo começo" que Obama almejou em seu discurso no Cairo, há dois anos.

Neste momento histórico, os Estados Unidos são um participante incerto. Isso é particularmente evidente na Síria. No mês passado, apesar de semanas de violência, Obama ainda concedeu a possibilidade da escolha ao presidente Bashar Assad: "Ele pode conduzir a transição ou sair do caminho".

Não existe expectativa plausível de Assad liderar um processo de reformas que o obrigue, e a seus apaniguados, a abandonar o poder. Essa cautela dos EUA reflete o medo do desconhecido e do que poderá ocorrer a seguir. Entretanto, o "demônio conhecido" não só viola direitos universais dos seus cidadãos como também limita interesses nacionais fundamentais dos EUA. Com Assad, o Irã exerce uma influência mais forte sobre os acontecimentos regionais. A Síria continua a comprometer a soberania do Líbano e seus interesses no longo prazo.

E agora ameaça desestabilizar sua fronteira com Israel, numa chantagem política que mina a busca de uma paz abrangente dos EUA no Oriente Médio. Nosso presidente tem demonstrado em vários discursos um enfoque audacioso, porém simples, em relação à Primavera Árabe, baseado nos nossos valores e interesses no longo prazo. Precisamos aplicar isto ao caso da Síria.

Depois de declarar, no dia 3 de março, que "Muamar Kadafi perdeu sua legitimidade para governar", está na hora de dizer o mesmo a respeito de Assad. Em relação à Líbia, o presidente assumiu a liderança e a comunidade internacional o seguiu. A resposta à Síria não será a mesma - não existe uma opção militar a esta altura -, mas essa afirmação, ainda que tardia, será uma forte advertência para as elites sírias que continuam apoiando o regime de Assad, isolará ainda mais o regime politicamente e criará um catalisador para novas sanções internacionais.

E o que é mais importante, assumindo a liderança agora, o presidente restaurará a confiança nos que continuam enfrentando os regimes repressivos não apenas na Síria, mas em toda a região. Como ele disse no dia 28 de março: "Algumas nações podem fechar os olhos para as atrocidades cometidas em outros países. Os Estados Unidos da América não fazem isso".

Há dois anos, quando a violência grassava em Teerã depois das eleições, o governo quase não se manifestou e deixou que os acontecimentos falassem por si sobre a natureza do regime iraniano. Na minha opinião, aquela foi a decisão correta e levou a uma persistente diminuição da legitimidade dos governantes do Irã. Agora, enquanto eventos dramáticos se desenrolam em toda a região, principalmente na Síria, o que está em jogo é a credibilidade dos Estados Unidos e nossa capacidade de defender nossos interesses e nossos valores.

Não podemos responder ao desafio sírio da noite para o dia, mas está na hora de derrubar a cerca e de nos colocarmos do lado certo da história. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

P. J. CROWLEY, EX-SECRETÁRIO ADJUNTO E PORTA-VOZ DO DEPARTAMENTO DE ESTADO DO GOVERNO OBAMA, LECIONA LIDERANÇA ESTRATÉGICA NO DICKINSON COLLEGE, NA PENN STATE DICKINSON SCHOOL OF LAW AND INTERNATIONAL AFFAIRS E NO ARMY WAR COLLEGE. ELE ESCREVEU ESTE ARTIGO PARA O WASHINGTON POST

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