''É uma forma autoritária de se fazer presente''

Tentativa de se manter vivo no universo virtual mesmo após a morte pode revelar desamparo pessoal

MARIANA MANDELLI, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2010 | 00h00

A tentativa de se manter vivo virtualmente mesmo após morrer no "mundo real" pode indicar, segundo os especialistas, baixa autoestima, desamparo pessoal, dificuldade em lidar com a perda e necessidade de cultivar lembranças. "É uma fantasia de imortalidade e de onipotência. Mesmo com a intenção amorosa, é uma forma autoritária de se fazer presente", afirma Rosa Maria Farah, coordenadora do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática da PUC-SP.

Alguns serviços podem ser úteis, afirmam os pesquisadores. Planejar virtualmente o funeral, para quem tem dificuldade de lidar com isso em vida, pode ser uma alternativa, assim como revelar senhas após o falecimento do usuário pode ser prático.

"É compreensível que não se queira discutir a morte em vida", explica o psiquiatra do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Unifesp, Aderbal Vieira Junior. "Esse tipo de serviço é uma forma de se fazer virtualmente aquilo que já era feito antes, como um testamento, na "vida real"."

O surgimento dessas manifestações mórbidas na internet pode ser encarado como mais um dos reflexos da transferência da realidade para o universo digital. "A internet é uma alavanca de dificuldades e recalques das pessoas. Ela dá a possibilidade de exercer um controle que não temos na vida real, como administrar uma fazendinha ou um falso perfil", explica o coordenador do projeto Dependentes de Internet, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, Cristiano Nabuco de Abreu.

Para ele, a possibilidade de reescrever a vida, mesmo que digitalmente, atrai as pessoas. "O problema não é a rede, mas sim as nossas vulnerabilidades, que levamos para ela. A internet acaba funcionando como uma fuga para as situações pesadas da realidade."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.