Ecos de 1968

Tudo se despedaça; o centro 

Lúcia Guimarães/NOVA YORK, O Estado de S. Paulo

11 Julho 2016 | 03h00

não segura;

Mera anarquia se solta sobre 

o mundo

(versos de A Segunda Vinda, 

de William Butler Yeats) 

 

“Parece que voltamos a 1968”, comentou um jornalista que trabalhou na campanha presidencial do senador Robert Kennedy, assassinado em junho daquele ano. A comparação foi feita no fim da semana em que a execução de cinco policiais por um atirador negro foi precedida pelo assassinato de dois negros por policiais. 

Um mês antes, outro jornalista, que começou a carreira no escritório do senador, reviveu a tragédia de 1968 no hotel Ambassador, em Los Angeles. 

A candidatura tardia de Bobby Kennedy havia se tornado viável com a vitória na primária de junho da Califórnia. Ele estava tão esgotado, que seus assessores mudaram a agenda da noite e decidiram que ele sairia para uma rápida coletiva de imprensa pela cozinha do restaurante do hotel. Lá o esperava o palestino Sirhan Bishara Sirhan, que descarregou um revólver calibre 22 no senador, ferindo mais cinco pessoas. O único agente do serviço secreto, deslocado à última hora, estava atrás de Kennedy. 

Numa entrevista recente a um podcast da CNN, o então assessor e hoje comentarista político Jeff Greenfield disse que as pessoas envolvidas na campanha ficaram horrorizadas, mas não surpresas. Havia uma expectativa de violência, ele recordou, contando que os versos de A Segunda Vinda de Yeats eram repetidos de cor por jovens no Senado. O próprio Bobby Kennedy teria dito, “Há armas de fogo entre eu e a Casa Branca”. A tensão racial explodia com a reação da maioria branca ao Ato de Direitos Civis assinado por Lyndon Johnson em 1964. Aumentavam os protestos contra o Vietnã, que passaram a galvanizar estudantes.

Ouvi a comparação a 1968 mais de uma vez nas últimas semanas, talvez porque um novo livro sobre Bobby Kennedy reabriu a ferida do Kennedy que não foi. Em Bobby Kennedy: The Making of a Liberal Icon, o autor Larry Tye usa seu acesso a informação inédita para reconstruir a evolução de um político que começou na direita – trabalhou com o infame senador Joe McCarthy, o caçador de comunistas, autorizou o grampo de Martin Luther King e apoiou, no começo, o envolvimento americano no Vietnã. Entrou para a história como o político que defendia a democracia racial, combatia a pobreza e defendeu a retirada do Vietnã.

Em 2016, não há meio milhão de americanos servindo numa guerra impopular como a que matou 28 mil só em 1968. Há, sim, o envolvimento militar mais longo da história do país, no Afeganistão, estendido há dias por Barack Obama. Nenhuma bala assassina conseguiu atingir o primeiro presidente negro e campeão de ameaças de morte.

O Ato de Direitos Civis assinado por Johnson tornou ilegal qualquer discriminação baseada em raça, religião, sexo ou nacionalidade. Releia a frase anterior e pense em Donald Trump. Meio século depois de Johnson, apoiado pela Ku Klux Klan, antissemitas, chauvinistas armados e truculentos de vários matizes, Trump pode se eleger numa campanha que anunciou declarando que mexicanos são estupradores.

A violência de assassinatos mudou a história várias vezes no século 20. Mas a complacência imprimiu também sua marca na morte de milhões. Quando Martin Luther King foi morto, em abril de 1968, Bobby Kennedy estava viajando em campanha. Havia temor, logo confirmado, de explosão de violência em bairros negros. Ele foi direto para uma esquina no coração do gueto negro de Indianápolis e anunciou a morte de King num discurso memorável. Sem mencionar o nome do irmão John, assassinado em 1963, o senador disse que conhecia bem o ódio que poderia consumir os presentes por causa da “morte de um membro” da família. “Mas ele foi morto por um branco”, concluiu, antes de dizer que o país precisava fazer escolhas.

É difícil imaginar um político consequente ter coragem de falar assim hoje nos Estados Unidos. Mais difícil ainda imaginar, neste tempo em que a rede social é o rabo sacudindo o cachorro da história, um homem público evoluir diante de seus eleitores sem ser descartado com sarcasmo. O discurso de Bobby Kennedy naquela esquina do gueto encontra eco em discursos feitos por Barack Obama.

O ex-assessor de Kennedy que anda revivendo 1968 confessou que foi ingênuo em 2008: supôs que a vitória de Obama ia começar a expiar o pecado original dos Estados Unidos. Não estamos testemunhando a violência de 1968. Mas, se algo aumentou, foi o calibre das armas de fogo, não o calibre dos políticos.

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