Ecos do Brasil de outrora

Artigo publicado originalmente no Estadão Noite

Jean Marcel Carvalho França*, O Estado de S. Paulo

29 Maio 2015 | 19h01

É no mínimo incerto asseverar que aqueles cidadãos abnegados, que despenderam 11 horas de sua vida acompanhando a sabatina do doutor Fachin no Senado, tenham realmente aprendido algo de relevante sobre a conduta que adotará o agora juiz do STF, tamanha a quantidade de atentados à racionalidade, golpes contra o bom senso, lisonjas vazias e bobagens proferidas naquela longa terça-feira. Esses heróis da resistência, porém, certamente não deixaram de observar o quão pernóstico e antiquado é o uso que os senhores do direito insistem em fazer da generosa língua portuguesa - aquela língua que tão bem serviu a Joaquim Nabuco, Machado de Assis, Gilberto Freyre, Guimarães Rosa, Sérgio Buarque de Holanda e a tantos outros que a utilizaram com cuidado e sem deslumbre.

“Juridiquês”, dirão alguns, linguagem própria de um saber que busca se afastar dos ruídos e ambiguidades da linguagem de senso comum. Ora, não me parece que estejamos aqui diante do empenho de depuração epistemológica de uma área do conhecimento; parece-me que estamos, sim, diante de um hábito ostentatório, socialmente aparentado do gosto pelo “anel de bacharel” e por ouvir do “vulgo” o tratamento de “doutor”. É pouco crível que os químicos promoveriam mais avanços na sua área se passassem a descrever as suas experiências no mais-que-perfeito, ou que os físicos explorassem com mais eficiência as possibilidades da teoria geral da relatividade se substituíssem as palavras de Einstein nos seus ensaios por sinônimos pouco usuais, ou que os historiadores ampliassem a sua visão do passado se recorressem sistematicamente a expressões em latim e passassem a escrever mimetizando o rebuscado português setecentista de Rocha Pita e Frei Jaboatão.

Efetivamente, não é, pois, de jargão científico que se trata, mas da simples permanência, num país de poucas letras, de hábitos ou vícios do passado. Hábitos daqueles tempos de vida urbana insignificante, de poucos livros e de poucas escolas, tempos em que uma meia dúzia de senhores de engenho ricos, destas “terras rústicas”, como dizia o poeta Cláudio Manuel da Costa, mandavam seus primogênitos cursar leis em Coimbra e exibiam aquelas aves raras, de linguagem empolada e modos estudadamente requintados, como um traço de distinção social, uma marca da superioridade do clã familiar. A real cultura do jovem doutor em leis importava tanto quanto o conteúdo daqueles livros de capas bordadas em dourado, comprados por metro, que ornavam as estantes da biblioteca do engenho.

Hábitos, também, daqueles tempos em que o Brasil independente contava com duas faculdades de Direito (São Paulo e Recife) e duas de Medicina (Rio de Janeiro e Salvador), em que os homens saídos de tais instituições, por mais medíocres que fossem, eram tomados como seres de incomparável cultura - gênios incansáveis, destinados a conduzir o Brasil rumo à civilização - e o pouco conhecimento que tinham, num país de maioria analfabeta, era antes para ser exibido, por meio de um linguajar afetado e de um diploma de doutor, do que verticalizado através do esforço paciente e solitário. Imaginem o impacto que tiveram nos corações e mentes das gentes simples do interior do Brasil oitocentista as centenas de jovens bacharéis que, providos de uma meia dúzia de expressões latinas, um dicionário de sinônimos na ponta da língua e um punhado de citações filosóficas que mal compreendiam, retornaram das capitais da cultura jurídica nacional para suas modestas vilas e cidades de origem.

É verdade que, desde muito cedo, esses seres de fala tortuosa e ares de sábio viram-se ridicularizados pelo país afora, mas parece que passaram totalmente imunes pelo, neste caso, saudável “bullying”. Ao ouvirmos uma parte nada desprezível dos representantes atuais da espécie, temos a nítida impressão de que ainda entendem aquela piada sobre Rui Barbosa e o ladrão de galinhas - aquela em que Barbosa dispara um juridiquês para censurar a ação do ladrão e o ladrão, confuso, pergunta: “Cumé seu Rui, posso levar a galinha ou não?” - como um elogio à erudição do “doutor” e à sua distância do vulgo, e não como uma exaltação ao bom senso do homem comum, que sutilmente ridiculariza o “bem falar” ostentatório e vazio.

* Jean Marcel Carvalho França é professor da Unesp de Franca

Mais conteúdo sobre:
Estadão Noite Fachin

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.