Educador português critica sistema de ensino do País

O educador português José Pacheco criticou na manhã desta quinta-feira, no Rio, o sistema de educação brasileiro, as gratificações dadas pelos governos estaduais aos professores e as metas de qualidade do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Reconhecido internacionalmente por seus projetos educacionais inovadores, Pacheco participou de uma palestra para professores no Rio. Segundo ele, o Brasil vive uma tragédia por ter cerca de 24 milhões de analfabetos funcionais e um dos sistemas de ensino mais caros e ineficientes do mundo.

ANTONIO PITA, Agência Estado

22 de novembro de 2012 | 17h34

"As escolas do Brasil são geridas pela burocracia e não pela pedagogia. O País padece de uma tragédia, que é a formação de 24 milhões de analfabetos funcionais. O sistema educacional consome R$ 56 bilhões de reais por ano, é um dos mais caros e menos eficazes", afirmou o professor durante a palestra. "Os políticos também, são os mais caros e menos eficientes", ironizou o professor.

Pacheco participou do evento Conecta sobre tecnologia educacional para professores das redes pública e privada de todo o País. Ele defendeu uma mudança na atual forma de ensino, focada na sala de aula, uniforme, disciplina e provas, o que ele classifica como uma escola "fossilizada". O educador ainda classificou como "miserável" as metas do Ideb estipuladas pelo Ministério da Educação e pelas prefeituras municipais.

"Querer atingir a nota 6 em 2021 é miserável. Quero Ideb 10 em 2012, e para isso é preciso se libertar do atual modelo", afirmou. "Não são os indicadores e parâmetros do Ideb que definem a qualidade do ensino, isso não prova nada. Se o professor cumprisse a Lei de Diretrizes e Bases, isso já seria revolucionário", completou o professor, para quem a legislação brasileira é avançada, porém não é plenamente adotadas nas escolas.

Gratificação

Perguntado sobre a gratificação que o governo do Rio dará aos professores mediante avaliação, instituído a partir do próximo ano, o educador afirmou que a medida não resolve o problema da qualidade de ensino nas escolas públicas. "As pesquisas indicam que isso não serve para nada. O sistema acaba por bonificar as pessoas erradas, pois não se mede o resultado em um ano. Após dois ou três anos, com o desenvolvimento do aluno, é que se pode afirmar a qualidade do professor", afirmou.

O projeto prevê bonificação entre R$ 500 e R$ 4 mil reais para os professores da rede estadual, de acordo com a avaliação e a carga horária semanal dos educadores. A iniciativa foi criticada por sindicalistas e professores que acreditam que a gratificação pode substituir os reajustes salariais e dividir e a categoria.

A palestra de José Pacheco também abordou temas como a utilização de novas tecnologias na educação e o papel do professor para estimular o aprendizado do aluno e transmitir, não apenas informação, mas conhecimento e valores aplicados à realidade das crianças e adolescentes. "Não adianta colocar lousas eletrônicas, dar computadores a cada aluno, criar laboratórios de informática que ficam fechados. Isso vira lixo tecnológico", avaliou.

Ele citou como exemplos de transformações bem-sucedidas na educação o projeto Âncora, em que atua como voluntário, na cidade de Cotia, no interior de São Paulo. Pacheco relatou o desabafo de uma diretora da rede pública que disse se sentir cansada de ir aos funerais de seus alunos.

"É preciso resgatar a ideia de comunidade, de espaço de aproximação e socialização que é a escola. O sistema não vai melhorar de cima para baixo, do Ministério para as escolas. É preciso ter um diálogo com essas pessoas, mas a partir de projetos dos professores, desenvolvidos a partir de práticas e experiências locais, com gestão e autonomia das escolas", afirmou.

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