Efeito sem causa

Dias atrás circulou na grande mídia a informação de que o governo Lula é "o maior comprador de livros do mundo", já que adquiriu "57,5% dos 211.542.458 livros vendidos no Brasil em 2008". Peta. Não conheço dados sobre a compra de livros por governos de outros países, por isso não sei se também nesse campo nosso façanhudo presidente é "o cara". Mas segundo a pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro-2008, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) para a Câmara Brasileira do Livro (CBL) e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), no ano passado foram vendidos no Brasil 333.264.519 exemplares de livros (e não apenas 211 milhões), dos quais 121.722.061 (apenas 36,3%, não 57,5%) foram compras governamentais, em todos os níveis. Essa pesquisa anual revela, para todos os efeitos - menos, é claro, propaganda enganosa - os números oficiais do mercado livreiro no Brasil.

A. P. Quartim de Moraes, O Estadao de S.Paulo

31 Outubro 2009 | 00h00

Não é a primeira vez que se veiculam números discutíveis sobre o mercado de livros no País. Não se trata de questionar a idoneidade das pesquisas, mas sabemos que metodologia e interpretação permitem sempre a subjetividade que pode, em alguma medida, comprometer a precisão dos resultados. E quando esses resultados tendem a favorecer sempre os interesses promocionais do poder público, é prudente manter aceso o espírito crítico.

Refiro-me de modo geral aos recentes indicadores do desempenho do mercado editorial brasileiro, que tendem a alimentar a fantasia de que nunca antes neste país se fez tanto, e tão bem, em benefício do livro e da leitura. É o caso da informação imprecisa citada na abertura deste texto e muitas outras. Mas chama particularmente a atenção a auspiciosa novidade de que o índice de leitura no Brasil quase triplicou nos últimos sete ou oito anos, espetacularmente catapultado da marca de 1,8 livro lido por ano, em média, por cada cidadão brasileiro para os 4,7 que hoje se comemoram acriticamente.

O projeto Retratos da Leitura no Brasil, que teve duas edições, a primeira de 2001 e a última de 2008, é uma admirável iniciativa do Instituto Pró-Livro (IPL), organização sem fins lucrativos mantida pelos mencionados CBL e Snel, mais a Associação Brasileira de Editores de Livros (Abrelivros), que reúne as editoras do segmento de didáticos e paradidáticos.

Em 2001 o Retratos confirmou o que era então voz corrente no mercado editorial. O índice médio de consumo de livros/ano no País era de menos de 2 per capita. Mais precisamente, 1,8. Aí incluídos os livros didáticos e paradidáticos, de consumo compulsório na rede escolar.

A pesquisa realizada no segundo semestre de 2007 e divulgada em maio do ano passado revelou que em sete anos aquele índice saltou para 4,7, bem mais próximo da realidade dos países do Primeiro Mundo.

Nesta segunda edição, a pesquisa foi realizada pelo Ibope Inteligência, com metodologia desenvolvida pelo Centro Regional de Fomento ao Livro na América Latina e no Caribe (Cerlalc), organismo da Unesco, com o intuito de estabelecer um padrão internacional de medição. Duas instituições absolutamente idôneas, a exemplo do IPL. Desta vez foi significativamente ampliado o universo pesquisado, que antes abrangia apenas os brasileiros com 14 anos ou mais e que tivessem lido pelo menos um livro nos três meses anteriores à consulta. Agora foram ouvidos todos os brasileiros de 5 anos ou mais, na mesma condição.

Com essa nova metodologia, que incluiu ainda as pessoas com menos de três anos de escolaridade, o universo investigado pelo método de amostragem passou a abranger 92% da população brasileira: 172 milhões. Em 2000 esse universo era de apenas 86 milhões e correspondia a 49% da população.

O fato de o universo pesquisado ter praticamente dobrado de uma edição para a outra não explica por si só, é claro, a espetacular multiplicação por 2,6 do índice médio de leitura per capita no País. Para que a população brasileira passasse a ler, em média, 2,6 vezes mais é de imaginar que ao longo dos últimos sete anos tivessem sido executadas políticas públicas quase revolucionárias nas áreas de educação e cultura. E isso traria também como consequência um aumento expressivo na produção e venda de livros. Nem uma coisa nem outra ocorreram.

As compras governamentais de livros permanecem relativamente estáveis de ano para ano. O louvável recente esforço do governo federal para aumentar a rede de bibliotecas públicas também não explica o prodígio, pois a própria pesquisa revela que três de cada quatro brasileiros não frequentam casas de leitura. E embora o Ministério da Cultura tenha anunciado que quase 90% dos municípios brasileiros têm pelo menos uma biblioteca, apenas 66% dos entrevistados confirmam isso.

Para que sejam lidos hoje 2,6 vezes mais livros do que há sete anos é preciso que esses livros existam. A produção e o acervo bibliográfico nacionais do início da década davam conta de um consumo médio muito modesto. Hoje a indústria livreira continua se queixando da baixa demanda. De 2007 para 2008, por exemplo, o aumento do número de exemplares vendidos foi de insignificante 1,4%, segundo a Fipe.

Salvo a hipótese de que o indicador de 2001 é que estivesse muito subestimado, o que teria, afinal, possibilitado o quase ingresso do Brasil na seleta lista dos países letrados?

Mesmo sem medo de ser feliz, não é fácil aceitar o indicador 4,7 avalizado pela própria indústria do livro. Talvez esse incremento impressionante tenha algo que ver com a mudança na metodologia da pesquisa do IPL. Mas isso não fica claro em lugar nenhum, pelo menos para o entendimento dos mortais. Trata-se, portanto de um fenômeno da misteriosa categoria dos efeitos sem causa, de que esta alegre Nação se tem revelado tão pródiga.

A. P. Quartim de Moraes é jornalista e editor.

E-mail:apquartim@dualtec.com.br

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