Efeitos colaterais? Esses remédios têm alguns

Médicos americanos criticam a sobrecarga de informação conflitante gerada pelo excesso de possíveis efeitos inesperados nas bulas

Gina Kolata, O Estado de S.Paulo

12 Junho 2011 | 00h00

Jon Duke, da Universidade de Indiana, tentou descobrir porque as plaquetas do sangue do seu paciente estavam anormais. Poderia ser efeito colateral de uma das dezenas de drogas que seu cliente tomava, o que é comum entre idosos. Passou, então, a ler a bula de cada um dos medicamentos. "Fiquei assombrado", disse o médico. "A lista de possíveis reações adversas é interminável."

Agora ele sabe o que causou o problema do seu paciente. Em artigo no Archives of Internal Medicine, Duke e dois colegas reportam que a bula de um medicamento traz uma lista de, em média, 70 possíveis efeitos laterais; outros chegam a listar mais de 500. "Isso vai além do que eu esperava", afirmou.

Para uma pessoa que sempre teve de ver anúncios de Flomax (remédio para tumor benigno da próstata), a lista dos efeitos colaterais de um remédio é quase uma piada. Mas a pergunta é: por que ela continua crescendo? Não é que o problema não tenha sido abordado. Em 2006, preocupado com um catálogo cada vez mais extenso de efeitos colaterais, Jerry Avorn e William Shrank, da Escola de Medicina de Harvard, escreveram um artigo para o New England Journal of Medicine qualificando o fato como "toxicidade linguística".

No mesmo ano, a Food and Drug Administration (FDA), a vigilância sanitária dos EUA, sugeriu que fossem elaborados rótulos mais claros, com novo formato, e avisou as empresas farmacêuticas de que "listas exaustivas de todos os eventos adversos reportados, incluindo aqueles pouco frequentes ou mínimos, observados comumente na ausência de uma terapia ou não relacionado com a terapia administrada, deviam ser evitados".

A nos depois de a diretriz ser estabelecida pela agência, Duke percebeu que, em vez de a lista diminuir, o número de efeitos colaterais aumentou nos rótulos existentes antes da nova exigência. Eram apontadas possíveis complicações bizarras, como "jogo compulsivo". Outras, como "náusea", são muito comuns e estão em 75% dos rótulos.

Em outros casos, eram reações adversas que surgiram em testes clínicos antes de a droga ser comercializada. Outras eram condições informadas pelos pacientes quando estavam tomando um remédio, que poderiam ou não ser causadas pela droga. Muitas vezes não existe uma maneira de saber porque ou como um efeito colateral é informado.

Catalogar cada indício de reação adversa pode ajudar as empresas farmacêuticas no caso de ações judiciais. Se alguém processa uma empresa por causa de um efeito colateral informado na bula que acompanha o medicamento, a empresa pode dizer que o paciente foi alertado.

Segundo a Associação de Pesquisa e Fabricação de Farmacêuticos, as empresas estão apenas cumprindo uma exigência da FDA, a de que devem divulgar todos os riscos de um medicamento, "mesmo que uma clara relação entre o remédio e o efeito observado não possa ser totalmente estabelecida", disse um porta-voz do grupo.

Sobrecarga. Para Christine Cheng, doutora em Farmácia pela Universidade da Califórnia, o que ocorre é um caso de "sobrecarga de informação". Ela escreveu um comentário que acompanhou o artigo de Duke.

Por e-mail, a FDA informou que "listas extensas de efeitos adversos raros e mínimos para os quais não existe nenhum dado apoiando uma relação de causa e efeito" não têm utilidade. Os pacientes concordam.

Jim Murrell, consultor de telecomunicações de 54 anos que vive em um subúrbio de Atlanta, diz que sempre quer saber tudo sobre as reações adversas que um remédio pode provocar, mas chegou à conclusão de que as informações no rótulo ou na bula de um remédio não ajudam; ele procura saber mais na internet.

"Eu tomava um remédio que provocava sono", conta o paciente. "Li um pouco mais a bula e vi que ele tinha um outro efeito colateral: insônia. Um medicamento provocava diarreia e também constipação. Não faz sentido."

"O que preciso saber provavelmente está oculto em algum lugar", acrescentou Murrell. "Mas provavelmente não necessito saber de todas aquelas informações que estão inseridas na bula - talvez apenas para o caso de alguma ação judicial." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

JORNALISTA DO NEW YORK TIMES

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