Eficácia de equipamentos e planos de emergência do pré-sal é questionada

Ambiente. Acidente em plataforma no Golfo do México mostrou que os procedimentos conhecidos para combater vazamentos não funcionam em profundidades elevadas. Para Agência Nacional do Petróleo, condições de exploração no País são satisfatórias

Nicola Pamplona, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2010 | 00h00

"Existe hoje um grande ponto de interrogação sobre a segurança do uso da tecnologia atual nas condições adversas do pré-sal." A frase, de um executivo próximo às operações da maior província petrolífera brasileira, resume a principal preocupação do setor sobre a possibilidade de vazamentos como o do Golfo do México ocorrerem no Brasil. Confiabilidade de equipamentos e eficiência dos planos de emergência são apontados como os pontos cruciais.

É consenso no mercado que a Petrobrás tem hoje uma atuação conservadora no que diz respeito à segurança operacional, estratégia reforçada após três catástrofes no início dos anos 2000: o naufrágio da plataforma P-36, na Bacia de Campos, e os vazamentos de petróleo na Baía de Guanabara e no Rio Paraná. Desde então, a companhia afirma ter investido R$ 4,2 bilhões no Programa de Excelência em Gestão Ambiental e Segurança Operacional, além de construir nove centros de defesa ambiental.

Um incidente no projeto piloto de produção de Tupi, porém, trouxe à tona dúvidas sobre o uso de equipamentos atuais nas altas profundidades do pré-sal. Em julho de 2009, um parafuso instalado em um equipamento submarino não resistiu às altas pressões e se rompeu, obrigando a Petrobrás a suspender as operações no campo. Após diagnosticar a situação, a empresa decidiu rever as especificações para a fabricação da peça, com material mais resistente.

O episódio não provocou danos ambientais, mas foi encarado como um indicativo da necessidade de desenvolvimento de novas tecnologias para garantir a segurança das operações. O Brasil é hoje líder em atividade exploratória em águas profundas, e a Petrobrás espera produzir só no pré-sal uma média de 1,8 milhão de barris por dia em 2020. A alta produtividade dos poços reforça o alerta, já que um acidente como o da plataforma Deepwater Horizon, no Golfo, poderia liberar mais de 30 mil barris de petróleo por dia.

Nova fronteira. O diretor de tecnologia e inovação da Coppe/UFRJ, Segen Estefen, destaca o desafio da nova forma de exploração. "O pré-sal implica grandes lâminas d"água (distância entre a superfície e o leito do mar), grandes profundidades de poço e baixas temperaturas." Os poços chegam a ultrapassar os 6 mil metros de profundidade de água e rocha, em lâminas d"água com mais de 2 mil metros.

Logo após o acidente no Golfo do México, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) enviou às petroleiras que operam no País um questionário pedindo informações sobre a segurança das atividades. A medida teve como objetivo fazer um levantamento da qualidade dos equipamentos e procedimentos adotados e será a base para um diagnóstico sobre as condições de segurança da atividade petrolífera em alto mar no País, já sob a ótica do acidente no Golfo.

Responsável pela fiscalização das plataformas brasileiras, em convênio com a Marinha, a ANP avalia como satisfatórias as condições para o nível de atividade na costa brasileira. Tanto a ANP quanto a Petrobrás evitam comentar o acidente ocorrido no Golfo do México enquanto as causas não forem conhecidas.

Em apresentação na Câmara dos Deputados no mês passado, executivos da Petrobrás disseram que as equipes estão aptas a chegar a qualquer ponto de atuação no País em, no máximo, 24 horas. Se a distância for de 400 quilômetros - suficiente para a Bacia de Campos e o pré-sal - o tempo cai para oito horas.

Mesmo assim, a questão dos planos de emergência é outra preocupação do mercado. Isso porque a produção do pré-sal será feita a cerca de 300 quilômetros da costa, em condições climáticas adversas, que podem facilitar o espalhamento do óleo por variadas direções.

O acidente com a Deepwater Horizon mostrou que os procedimentos conhecidos para estancar o fluxo de petróleo não têm sido eficazes em profundidades mais altas. "Muitos dos procedimentos que estamos tentando já foram feitos à superfície, mas nunca a uma profundidade superior a 1,5 mil metros", alertou a British Petroleum.

"Nenhum país estaria preparado para um vazamento como esse. Muitas coisas vão mudar", diz um executivo do setor.

Desafio

SEGEN ESTEFEN

DIRETOR DE TECNOLOGIA E INOVAÇÃO DA COPPE/UFRJ

"Estamos indo para uma nova fronteira exploratória e não podemos pensar que está tudo pronto."

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