Egípcios escolhem presidente pela primeira vez

Os egípcios vão às urnas na quarta-feira na primeira eleição presidencial livre no país irá opor políticos islâmicos a ex-integrantes do deposto regime de Hosni Mubarak.

EDMUND BLAIR, REUTERS

22 Maio 2012 | 20h01

Durante os 30 anos de governo do "faraó" Mubarak, as eleições eram meras encenações, com resultados já conhecidos de antemão. Os regimes anteriores, sob o domínio de faraós, sultões, reis e militares, tampouco eram democráticos.

Agora, espera-se que os 50 milhões de eleitores registrados compareçam em peso às seções eleitorais para decidir quem irá governar o país depois que a Junta Militar encerrar formalmente a atual fase de transição, em 1o de julho. Desde a deposição de Mubarak, em fevereiro de 2011, o Egito vive uma fase de violência, protestos e impasse político.

"Claro que vou votar. Quero mudança. Não podemos ficar nessa situação bagunçada pelo resto das nossas vidas", disse o contabilista Wael Azmy, que vai tirar folga na quarta-feira para poder encarar a fila que ele espera encontrar nos locais de votação.

A campanha eleitoral oficial, que durou três semanas, terminou no domingo. Durante esse período, houve o primeiro debate televisionado na história do país, envolvendo dois candidatos, e os jornais publicaram entrevistas e anúncios. Cartazes e faixas dominam as ruas.

Nenhum dos 12 candidatos deve obter maioria absoluta no primeiro turno, que acontece na quarta e quinta-feira. Por isso, provavelmente haverá um segundo turno em junho.

Quem vencer terá pela frente a enorme tarefa de realizar reformas e promover o crescimento econômico. As Forças Armadas, que foram um pilar do regime de Mubarak, devem manter uma considerável influência política pelos próximos anos, embora digam que seu interesse é abrir mão do poder.

"Com estas eleições, completaremos o último passo do período de transição", disse o general Mohamed el-Assar em entrevista coletiva.

Há poucas pesquisas confiáveis para indicar quem é o favorito.

O Ocidente, sempre receoso da ascensão de políticos islâmicos, e Israel, preocupado em manter a paz instaurada em 1979 com o Egito, acompanham atentamente o pleito, depois de verem os grupos islâmicos formarem maioria na eleição parlamentar que terminou em janeiro.

Muitos países do golfo Pérsico também se mostram preocupados com os destinos do mais populoso país árabe. Suas monarquias conservadoras até agora escaparam relativamente ilesas da onda de rebeliões democráticas que ficou conhecida como Primavera Árabe.

Tentando atenuar essas preocupações internacionais, o candidato da Irmandade Muçulmana, Mohamed Mursi, prometeu no seu comício final, no domingo, que "não vamos exportar nossa revolução para ninguém".

Mursi entrou na disputa na última hora, depois da exclusão pelas autoridades do candidato titular da Irmandade. Ele não tem muito carisma, mas pode se valer da forte estrutura da Irmandade.

Entre seus rivais estão Abdel Moneim Abol Fotouh, um político islâmico que atrai um amplo contingente de apoiadores, de liberais a radicais salafistas; Amr Moussa, ex-chanceler e ex-dirigente da Liga Árabe, cujo nome é muito conhecido dos eleitores; e Ahmed Shafiq, ex-comandante das Forças Armadas e último primeiro-ministro de Mubarak.

Numa arrancada de última hora desponta Hamdeen Sabahy, um esquerdista inspirado por Gamal Abdel Nasser, cujos "Oficiais Livres" derrubaram o rei Farouk em 1952 e estabeleceram o sistema que fez com que militares ocupassem a presidência nos últimos 60 anos.

Sob pressão dos Estados Unidos, Mubarak realizou em 2005 uma eleição presidencial com vários candidatos, mas as regras impediram qualquer desafio real contra ele. Outra votação deveria ter acontecido em 2011, mas ele foi derrubado antes disso.

(Reportagem adicional de Tamim Elyan e Marwa Awad)

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