Egito faz festa em eleição presidencial livre

Os egípcios festejaram na quarta-feira a oportunidade de escolher seu líder livremente pela primeira vez na história, numa disputa que contrapõe políticos islâmicos a personalidades laicas, e que seria impensável antes da revolta popular que derrubou o presidente Hosni Mubarak, 15 meses atrás.

SHAIMAA FAYED E MARWA AWAD, REUTERS

23 Maio 2012 | 18h13

A votação em geral foi tranquila, mas o candidato Ahmed Shafiq, último primeiro-ministro de Mubarak, foi alvo de pedradas e sapatadas quando votava à noite no Cairo. Shafiq, de 70 anos, não se machucou, segundo testemunhas.

Não há pesquisas confiáveis, mas a incerteza sobre o resultado, em vez de afligir os egípcios, é um alento após eleições meramente protocolares durante os 30 anos do regime de Mubarak.

"Precisamos provar que o tempo em que ficávamos em casa e alguém escolhia por nós acabaram", disse o treinador de natação Islam Mohamed, 27 anos, numa seção eleitoral do Cairo.

O pleito marca o apogeu de uma turbulenta transição política desde a revolta que derrubou Mubarak, em fevereiro de 2011. A junta militar egípcia promete entregar o poder em 1o de julho, mas as Forças Armadas preservarão uma grande influência política depois disso.

Os revolucionários que acamparam na praça Tahrir no ano passado para depor Mubarak podem relutar em confiar o futuro do Egito a políticos islâmicos ou a remanescentes do antigo regime, mas esses candidatos podem atrair muitos dos 50 milhões de pessoas aptas a votar, e que desejam uma reforma com matizes islâmicos, ou por uma mão firme e experiente que restaure a estabilidade e a segurança.

Dificilmente algum dos 12 candidatos obterá mais de metade dos votos válidos, o que exigirá a realização de um segundo turno em junho. A votação do primeiro turno continua na quinta-feira, e o resultado já deve ser conhecido no sábado, embora os números finais só sejam esperados para terça-feira.

Monitores independentes não relataram abusos graves, mas alguns eleitores se queixaram de campanha irregular na frente das seções eleitorais.

O novo presidente terá pela frente a tarefa de promover a retomada do crescimento econômico. Mas os poderes atribuídos ao presidente, ao governo, ao Parlamento, ao Judiciário e às Forças Armadas ainda não estão definidos, pois persiste um impasse sobre quem deve redigir a nova Constituição.

Muitos egípcios continuam indecisos. "Vou descobrir quando segurar aquele pedaço de papel nas mãos. Vou me inspirar na urna", disse o varredor de ruas Abdel Kareem Abdel Nasser, de 67 anos.

O clima era festivo e tranquilo, os eleitores batiam papo em filas que ficaram menores nas horas mais quentes do dia, e voltaram a encher à noite. A votação foi prorrogada em uma hora, e o governo decretou feriado na quinta-feira para estimular o comparecimento.

Num bairro do Cairo, o candidato Amr Moussa, de 75 anos, ex-chanceler e ex-chefe da Liga Árabe, ficou na fila como todos os demais. “"Espero que elejam um presidente que possa realmente liderar o Egito neste tempo de crise", declarou.

Em outra seção, alguns eleitores aplaudiram o candidato islâmico independente Abdel Moneim Abol Fotouh, de 60, que também entrou na fila.

Muitos egípcios se sentiram valorizados e entusiasmados com a ocasião.

"Nunca votei parra presidente antes na minha vida, então a experiência é bastante nova, e me faz sentir um cidadão deste país", disse Ahmed Ali, estudante de Farmácia em Alexandria.

(Reportagem adicional de Yasmine Saleh, Tamim Elyan, Dina Zayed, Patrick Werr, Samia Nakhoul, Tom Pfeiffer e Edmund Blair no Cairo)

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