Einstein e o vatapá com pimenta o melhor de tudo

Recebido e cortejado por intelectuais, políticos, militares, diplomatas e profissionais liberais, o físico Albert Einstein (1879-1955), nascido na Alemanha, mas naturalizado cidadão suíço e depois norte-americano, esteve duas vezes no Rio de Janeiro, em 1925. Já havia lançado os fundamentos da Teoria da Relatividade e dos quanta de luz, que lhe deram notoriedade mundial, e também recebera o Prêmio Nobel de Física. Na primeira visita, a 21 de março, desembarcou do navio para cumprir um périplo de horas. Conheceu o Jardim Botânico, almoçou no restaurante do Copacabana Palace Hotel e elogiou a beleza da cidade; atravessou a pé as ruas do centro e se dirigiu ao porto, a fim de continuar a viagem que o levaria à Argentina e ao Uruguai. Einstein voltou ao Rio a 4 de maio, só regressando à Europa a 12 de maio. Nesse período, ocupou o apartamento 400 do elegantíssimo Hotel Glória. Tinha como intérprete o austríaco Isidoro Kohn, comerciante de tecidos, judeu como ele, de quem acabou amigo. Além do alemão, só falava publicamente em francês. O gênio da física esteve em diferentes pontos turísticos e instituições locais: Pão de Açúcar, Corcovado, floresta da Tijuca, Instituto (hoje Fundação) Oswaldo Cruz, Faculdade de Medicina, Observatório Nacional, Museu Nacional e Hospital Nacional de Alienados. Foi recebido pelo presidente da República, Artur Bernardes. Na ocasião, exibia o habitual cabelo despenteado, porém vestia fraque com cheiro de loja comprado na Rua da Carioca e usava uma gravata emprestada pelo intérprete. Pronunciou conferências no Clube de Engenharia, Escola Politécnica e Academia Brasileira de Ciências (ABC). Descontraído pela simpática informalidade carioca, Einstein revelou seu lado gourmet. À Gazeta de Notícias de 8 de maio de 1925, referindo-se ao almoço que lhe ofereceu em casa, no dia anterior, o médico Aloísio de Castro, diretor da Faculdade de Medicina, fez revelações preciosas: "O professor Einstein teve oportunidade de demonstrar, na mesa, suas preferências culinárias. Ele é de resto um homem que digere bem e tem o prazer da boa mesa e do bom vinho. As suas simpatias, confessou-as pela cozinha italiana. Dá-lhe preferência sobre a francesa e alemã." Não se sabe o que comeu e bebeu na ocasião. Em compensação, o cardápio de um almoço anterior, oferecido pelo médico baiano Juliano Moreira, diretor do Hospital de Alienados, virou notícia. "O repasto foi constituído de pratos exclusivamente nacionais", informou O Jornal do dia seguinte, 12 de maio. "Einstein apreciou o vatapá baiano que lhe foi servido com pimenta." A tradição oral conta os detalhes. Apesar da advertência do anfitrião, Einstein teria despejado pimenta demais no prato e "queimado" a língua. Suando muito, ele contornou o aperto "refrescando-se" com uma salada de folhas. Encontrava-se na mesa, entre outros convidados, inteiramente à vontade e falando muito, o paraibano Assis Chateaubriand, dono de O Jornal. Einstein adorou o Brasil, embora não tenha encontrado aqui colegas físicos ou matemáticos. Acolheram-no engenheiros, médicos e advogados, que não entendiam direito seus enunciados científicos. Assim, é provável que não tenha passado os melhores momentos nas conferências - e, sim, no contato com a natureza. Isabel Lustosa, no prefácio do livro O Jardim de D. João, de Rosa Nepomuceno (Casa da Palavra, Rio de Janeiro, 2007), rememora a visita ao Jardim Botânico. "Deslumbrado com a beleza do jequitibá-rosa, Einstein perguntou ao diretor (...), Antônio Pacheco Leão, que árvore era aquela. Este lhe disse que o jequitibá, além de ser o gigante da nossa flora, uma das mais belas árvores das matas brasileiras, fornecia sombra protetora para gente e bicho e produzia madeira nobre usada na construção de casas, canoas e pontes. Sua casca continha tanino, substância com propriedades adstringentes úteis nas diarréias e nas anginas e que também era usada para o fabrico do papel. Quando um jequitibá caía na floresta - completou Pacheco Leão -, de velhice, serrado pelo homem ou derrubado por um raio, o estrondo era tão tremendo que podia ser ouvido no fim do mundo. Conta a lenda que, depois de ouvir isso, Einstein abraçou e beijou o jequitibá-rosa." O gênio da física deixou o Brasil levando de presente um papagaio treinado para repetir uma frase mista, em português e alemão. Cariocas do século passado contavam que por alguns anos aquela ave loquaz o fez lembrar da viagem à América do Sul, dizendo sem parar: "Data venia, Herr Einstein, data venia, Herr Einstein." À MODA BAIANA Vatapá 1h30 minutos 8-10 porções Ingredientes 5 pãezinhos dormidos Leite de 2 cocos ou 2 vidrinhos de leite de coco 1 kg de peixe em postas 500g de camarões frescos, médios, limpos Suco de 1 ou 2 limões 4 colheres (sopa) de azeite de oliva 2 cebolas bem raladas 3 dentes de alho esmagados 3 tomates grandes e maduros, pelados e batidos no liquidificador 250g de camarões secos, limpos 1/2 xícara (chá) de castanhas de caju torradas e moídas 1/2 xícara (chá) de amendoim torrado e moído 1/2 xícara (chá) de azeite-de-dendê Folhas de coentro a gosto Gengibre ralado a gosto Sal e molho de pimenta a gosto Preparo Parta os pãezinhos com a mão e coloque-os de molho no leite de coco por pelo menos 30 minutos. Depois de bem desmanchados, passe-os por peneira grossa. Tempere o peixe e os camarões frescos com sal e limão. Coloque-os em uma panela grande e refogue no azeite quente, com a cebola e o alho. Junte o tomate e o coentro. Assim que o peixe e os camarões estiverem cozidos, retire-os da panela e reserve. Incorpore à panela os camarões secos, as castanhas, os amendoins e o pão com o leite de coco. Tempere com o molho de pimenta, o gengibre e vá colocando aos poucos o azeite-de-dendê, mexendo, até a mistura ficar cremosa. Junte o peixe e os camarões que estavam reservados, verifique o sal, misture e sirva quente.

jadiaslopes@terra.com.br, O Estado de S.Paulo

21 Fevereiro 2008 | 04h09

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