Einstein realiza primeira cirurgia de ponte de safena por meio de um robô

Médicos do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, realizaram ontem a primeira cirurgia da América Latina de revascularização do miocárdio - popularmente chamada de "ponte de safena" - totalmente por meio de um robô.

FERNANDA BASSETTE, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2011 | 03h02

Há pouco mais de um ano, a mesma equipe de cirurgiões fez a primeira troca de válvula cardíaca também totalmente robotizada - cirurgia menos complexa do que a revascularização.

O paciente operado é Alvacir Percival Silveira, de 49 anos, de Joinville (SC). Silveira sofreu um enfarte em novembro e não se recuperou com medicamentos. Passou a apresentar insuficiência coronariana - cansaço aos mínimos esforços - já que estava com uma das artérias quase totalmente comprometida. Por isso, tinha indicação cirúrgica.

A operação - que evitou um corte de 25 cm no peito do paciente - foi comandada "a distância" pelo cirurgião Robinson Poffo, que manipulou os braços do robô em um console longe do paciente, por meio de joysticks.

Também foi acompanhada pelos cirurgiões Alisson Toschi, Renato Pope e Alex Cellulare - a eles coube a missão de acompanhar o procedimento ao lado do paciente para cuidar da circulação sanguínea fora do corpo, monitorar as imagens e trocar as pinças e fios usados pelo robô.

A cirurgia durou pouco mais de 5 horas e Silveira recebeu uma ponte de mamária - artéria que fica próxima ao coração.

"A cirurgia foi um sucesso. Primeiro incorporamos o robô para cirurgia de troca de válvula, mais simples. Agora subimos um degrau e fomos para a revascularização. É um avanço", diz Poffo.

Vantagens. Segundo Poffo, uma das vantagens da cirurgia robótica é evitar abrir o peito do paciente, como acontece nas cirurgias tradicionais - o que aumenta o risco de infecções e torna a recuperação bem mais lenta: são dois dias na UTI, dez dias no hospital e até 60 dias para retomar as atividades.

Na cirurgia robótica, são feitas quatro pequenas incisões de cerca de 1 cm por onde passam uma microcâmera, afastadores, pinças e outros instrumentos.

Sem o campo aberto, o risco de infecções cai significativamente. Além disso, há menos sangramento e complicações - já que o robô filtra possíveis tremores do cirurgião e as pinças permitem movimentos mais precisos e delicados. O paciente permanece apenas um dia na UTI, fica três internado e em dez dias pode retomar as atividades.

O custo de uma cirurgia robótica é cerca de 30% mais alto do que uma de peito aberto, mas, segundo Poffo, esses gastos acabam sendo minimizados, já que o paciente fica menos tempo em UTI e tem alta mais rápido.

"O custo da incorporação de novas técnicas é alto e o treinamento é longo e complexo, exige muito mais habilidade do cirurgião. Mas com o domínio da técnica, a tendência é reduzir esses valores", avalia Poffo.

Bernardo Tura, coordenador de ensino e pesquisa do Instituto Nacional de Cardiologia, vinculado ao Ministério da Saúde, diz que essa é uma tecnologia que ainda deve demorar para ser usada no SUS. "Os potenciais benefícios da técnica são grandes. Mas isso exige um profissional mais preparado, um aparelho especial. Uma coisa é fazer em casos selecionados, outra é fazer de forma generalizada", avalia.

O cirurgião Januário Manuel de Souza, do Hospital Beneficência Portuguesa, tem a mesma opinião. "É uma técnica espetacular, mas ainda está muito longe de ser usada rotineiramente. Além do preço do robô ser um limitador, isso dependeria de uma equipe muito especializada. Talvez, à medida que ela for sendo feita, mais equipes se especializem e o preço caia", diz.

Hoje a mesma equipe fará mais uma revascularização por meio do robô. Desta vez, será um homem de 73 anos, de Curitiba.

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