Ela avança na Argentina

A nobre uva Syrah chegou há muito tempo e ocupa uma faixa considerável do vinhedo da Argentina. Mas era até pouco uma ilustre desconhecida, pois dificilmente aparecia nos rótulos. Era mais usada em corte, muitas vezes de produtos comuns. Hoje, desponta como uma das uvas do futuro do país. A Syrah é originária das Côtes du Rhône onde dá alguns dos melhores, de mais classe e mais caros tintos da França, como Hermitage e, principalmente, Côte Rôtie. Foi levada meio por acaso para a Austrália, onde assumiu o nome de Shiraz e acabou gerando os melhores tintos do país, o que impulsionou sua difusão para a África do Sul, Chile e outros países. A Syrah cresceu com o vinho argentino. Ela não era valorizada na época em que quantidade importava mais que qualidade. A Syrah sempre deu tintos densos e com cor, boas características para os cortes de vinhos correntes e grosseiros que a Argentina consumia com uma sede incrível. O país chegou a beber 91,66 litros por habitante/ano em 1970. Hoje, o consumo caiu para perto de 30 litros, ainda o maior fora da Europa. Caiu o consumo e subiu a qualidade, na mesma velocidade. A Syrah melhorou no mesmo ritmo. Os lavradores passaram a cuidar mais das plantações e os enólogos começaram a dispensar maiores cuidados na cantina, fazendo aparecer bons exemplares. Mas há muito a progredir, pois ainda encontramos muitos Syrahs encorpados, mas meio rústicos, sem muita fruta e frescor. Aqui, ficamos com exemplares abaixo dos R$ 100. É bom ainda destacar as qualidades do Benegas Syrah 2005 (que seria ótimo se não fosse a graduação alcoólica muito alta, 15%) e Zuccardi Serie A 2006 (novo demais). As plantações de Syrah se concentram nas zonas de Mendoza e San Juan, as duas maiores. Em Mendoza, segundo o Guia Austral de 2008, são 152.926 hectares de uvas, dos quais 18.694 de Malbec; 15.132 de Bonarda; 12.604 de Cabernet Sauvignon; 7.347 de Syrah e 5.736 de Merlot. Na Argentina, comenta-se que vem crescendo a qualidade da Syrah na zona mais quente de San Juan, onde é a tinta mais plantada, com 3.265 hectares. ALAMOS SYRAH 2007 ONDE ENCONTRAR: MISTRAL, 3372-3400 PREÇO: R$ 26,33 COTAÇÃO: 85/100 Um tinto simples, de boa relação qualidade-preço. A Catena é uma das melhores vinícolas da Argentina, com vinhos de vários níveis. Os varietais da linha Alamos representam uma espécie de segunda linha, de produtos bem feitos, mas não complexos, e mais econômicos. Este Syrah é um bom exemplo. Como era de se esperar, bastante intensidade de cor. Ainda está fechado demais, pedindo mais um ano ou dois na garrafa, mas já dá prazer, principalmente na boca. Aroma tímido, com sugestões de frutas e de madeira ao fundo. Não impressionou muito bem no aroma. Melhorou consideravelmente na boca, onde se mostrou redondo, com boa fruta e boa acidez. Deu vontade de continuar bebendo. Final com toques de amargor. Álcool bem comportado. Deixou a boca um pouco ressecada. 14% de álcool. LUCA SYRAH, 2005 ONDE ENCONTRAR: VINCI, 2797- 0000 PREÇO: R$ 60,97 COTAÇÃO: 88/100 Um vinho de Laura Catena, filha de Ernesto Catena, o patriarca do grupo familiar. Um produto de Mendoza, sem indicação específica de uma sub-região. Confirmando a regra, bastante intensidade de cor, escurão. Um tinto típico, refletindo as características da uva. Complexo, com várias nuances. Aroma ótimo, porém não dos mais potentes. Muitas frutas tropicais e uma sugestão de carvalho. Primeira impressão na boca marcante. Tinto redondo, encorpado, quente, mas não alcoólico. Equilibrado e elegante. Frutas tropicais, como a goiaba, se repetem na boca ao lado de algo de chocolate. Fresco, com boa acidez. Guloso, dá vontade de continuar bebendo Taninos macios, sem toques de amargor. Mais do que pronto para o copo. Final agradável. Deixa boa sensação na boca. 13,5% de álcool. TERRAZAS RESERVA SYRAH ONDE ENCONTRAR: EMPÓRIO FREI CANECA, SHOPPING FREI CANECA, 3472-2082 PREÇO:R$ 69,99 COTAÇÃO:88/100 PONTOS Um belo vinho já evoluído, pronto para o consumo. A Terrazas é vinícola de ponta, controlada pela multinacional Moët & Chandon. Em Mendoza, a altitude dos vinhedos influi na qualidade e o rótulo indica que foi feito com uvas de Cruz de Piedra, Maipu, que fica a 800 m de altitude. Doze meses em barricas novas de carvalho, das quais 80% francesas e 20% americanas. A madeira aparece, nítida, mas sem exagero. Algo de baunilha e coco no nariz. O coco é muito típico do carvalho americano. Mas deixa espaço para frutas maduras, talvez geléias. Um belo aroma. Gostoso, elegante e equilibrado na boca. Não é dos mais intensos e encorpados, mas sim gostoso, com bom frescor e elegante. Equilibrado, nada alcoólico. Algo de chocolate. Final muito intenso e gostoso. Fica sensação boa e duradoura. 13,5% de álcool. FAMÍLIA RUTINI SYRAH 2004 ONDE ENCONTRAR: ZAHIL PREÇO: R$ 93 COTAÇÃO: 90/100 PONTOS A Família Rutini é uma das vinícola tradicional de Mendoza, com vinhos de vários níveis e preços. Este é de uma de suas linhas de elite, feito em Coquimbito, no distrito de Maipu. Passou 14 meses em barricas de carvalho francês, 30% das quais, novas. Mais um com grande intensidade de cor. Tem a vantagem de já ter passado um bom tempo na garrafa. Aroma complexo, misturando agradavelmente as frutas com a baunilha e toques queimados do carvalho. Também algo mineral. Continuou ótimo em todas as etapas na boca. Intenso, redondo. Aparecem sugestões de chocolate com frutas secas (avelã) Também evocou goiaba. Bom corpo e álcool mais do que bem equilibrado. De classe e elegante. Longo, deixou sensação gostosa e duradoura na boca. 13,5% de álcool.

saul.galvao@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2008 | 02h59

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