'ELA É UM POUCO TEIMOSA, MAS É A MINHA PRINCESA'

Aposentada que adotou órfã rejeitada pelos avós dribla preconceito e prepara festa de 15 anos

O Estado de S.Paulo

13 Maio 2012 | 03h06

Era o fim de uma madrugada fria de 1998 quando a aposentada Rosa Maria Alvarenga, de 63 anos, ouviu vários tiros no bairro onde mora, na zona leste de São Paulo, e resolveu sair de casa para ver o que estava acontecendo.

Descobriu que os vizinhos, que eram envolvidos com tráfico de drogas, haviam sido assassinados dentro de casa, na presença dos três filhos pequenos: uma menina de 7 meses, um menino de 5 anos e outro de 7.

As crianças choravam assustadas e, então, Rosa não pensou duas vezes: pegou a neném no colo, agarrou as outras duas crianças pelas mãos e as levou para sua casa. "Fiquei com medo que os bandidos voltassem para terminar o serviço."

Rosa, que já tinha três filhos adultos e nove netos, decidiu então que cuidaria daquelas crianças enquanto os avós não fossem buscá-las.

Cinco meses após a tragédia, as duas avós apareceram para buscar as crianças, mas não da forma como Rosa imaginava. Elas decidiram quem ficaria com cada um dos meninos, mas rejeitaram a menina - Luana - porque ela era soropositiva.

"Nenhuma delas quis levar a menina por causa da doença. Foram embora e raramente os irmãos entram em contato com a Luana. Eu não podia abandonar uma criança só porque ela tem uma doença", diz Rosa.

Adoção. Diante do abandono das avós, a aposentada continuou cuidando de Luana informalmente, como se fosse uma filha legítima.

Com o tempo passando, porém, Rosa percebeu que era preciso regularizar os documentos da menina, até mesmo para poder viajar e dar continuidade ao tratamento contra o HIV.

Decidiu, então, ir ao fórum para pedir a guarda de Luana. O juiz chamou as duas avós para confirmar se elas realmente estavam abrindo mão da criança e, diante da resposta positiva, passou a guarda definitiva a Rosa, que recebeu apoio total da família quando tomou a decisão de adotar a menina. "Foi muito rápido e fácil."

Desde então, Rosa criou Luana como filha legítima, mesmo sobrevivendo com uma renda de 1 salário mínimo por mês. A menina a chama de mãe, mas sabe de toda a sua história - embora não tenha recordações do dia porque era um bebê.

Por conta da doença, Luana teve de ser internada em várias ocasiões - em uma delas ficou por quatro meses no hospital.

Ela também precisa tomar 16 comprimidos por dia para controlar a evolução do vírus. A menina é acompanhada no Instituto Emílio Ribas, onde faz os exames frequentes. "Ela está super bem, tem gente que nem acredita. Às vezes ela não toma os comprimidos direito, joga fora escondido de mim. Ela é um pouco teimosa, mas é minha princesa", diz Rosa.

Aniversário. Luana, que hoje tem 14 anos, sempre foi ótima aluna e nunca repetiu de ano. Na escola, os professores sabem da sua condição de saúde e avisam Rosa quando acontece alguma coisa. "É uma aluna exemplar e nunca deu trabalho", diz a mãe.

Rosa diz que hoje em dia a menina não pensa em outra coisa que não seja a festa para comemorar seus 15 anos, em setembro. O evento, programado para 150 convidados, será feito em um salão de festas do bairro, com direito a bufê e valsa.

"Paguei o aluguel de parte do salão e já tem até o DJ. O cabelo e a maquiagem ela ganhou de uma vizinha, que tem um salão de beleza. A maior preocupação dela agora é que roupa usar no grande dia", diz a mãe. "Somos super companheiras. E sou capaz de fazer qualquer coisa pela felicidade da minha filha."

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