Alex Carvalho/Divulgação
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Ela não perde a majestade

Caduca? Nada! Aos 85 anos, Berta Loran arrasa em 'Cordel Encantado'

Patrícia Villalba/ RIO - O Estado de S.Paulo,

12 Junho 2011 | 06h00

Por experiência própria, a atriz Berta Loran confirma que, assim como a Rainha-mãe Efigênia, sua personagem em Cordel Encantado (Globo), a idade a deixou confortável para dizer o que pensa. "A gente se sente no direito, é isso. É que com a idade vem muita sabedoria, filhinha. Imagine, eu tenho 85 anos - e não tenho vergonha de contar porque a primeira coisa que me dizem é ‘ué, mas não parece!’", diz ela, com mente, corpo e coração tinindo, sentada no sofá de seu apartamento em Copacabana, onde recebeu o Estado.

Aos 85 anos de vida, 70 de carreira e mais de 4o de TV Globo, Berta, que foi estrela de humorísticos antológicos como Balança Mas Não Cai (1968), Faça Humor, Não Faça Guerra (1970), Planeta dos Homens (1976) e Viva o Gordo (1980), anda toda faceira pelos corredores da emissora por estar fazendo pela segunda vez consecutiva o que sempre quis - novela.

Antes de Cordel Encantado, em 2009, ela esteve em Cama de Gato, como a simpática Loló. As duas novelas, não por acaso, são de Duca Rachid e Thelma Guedes. Antes da dupla redescobrir Berta, ela havia feito apenas uma novela - Amor com Amor se Paga, em 1984. "Dá muito mais trabalho e você tem de estar lá mais vezes para gravar. Mas mesmo assim é melhor para o ator, porque você pode dar profundidade ao personagem", observa. "Sou muito franca, e tenho de dizer que primeiro chamaram a Eva Todor (para o papel de Rainha-mãe). Mas não deu certo e, um dia antes de gravar me mandaram a sinopse. Eu disse ‘sem problemas’, li a história e entendi como teria de ser a rainha. Imagine, com a experiência que eu tenho! São 70 anos de teatro, filhinha!"

Com a mesma doçura e sinceridade, a atriz afirma que o humor que se vê hoje em programas como o Zorra Total não lhe agrada mais. "O humor que eu gostava de fazer, com o Jô Soares e o Chico Anysio, era diferente, com menos grito", compara.

Por isso, a atriz não esconde que estar na novela mais vistosa da TV é um grande barato. E diz isso com uma alegria contagiante. "É uma novela muito difícil de gravar, feita praticamente como cinema. Mas é maravilhoso poder fazer parte de um projeto como esse", desmancha-se, contando ainda que não são raras as vezes em que madruga no Projac e vai embora tarde da noite. "Aquela roupa toda pesa 15 quilos, acredita? Ainda bem que os meninos do estúdio têm cuidado comigo, e me chamam só na hora de gravar", conta ela, valendo-se mais uma vez da sua posição de majestade.

Em cena, a Rainha-mãe faz graça fingindo ser caduca. "Já viu como ela sempre chama o Prefeito Patácio (Marcos Caruso) de outro nome? É Patinho, cada coisa... Faz de propósito, claro!", diverte-se a atriz.

Mas a Berta Loran real surpreende pela facilidade com que tira todo tipo de história do baú - da infância difícil na Polônia, da sobrevivência ao Holocausto, do teatro de revista, das chanchadas, dos primeiros anos da televisão, enfim, tudo o que uma testemunha atenta é capaz de apreender. "Com 9 anos, eu ficava na frente do espelho me esforçando para dizer ‘pão’ direito, porque ficava chateada quando riam de mim na padaria", conta, lembrando os idos de 1938, quando veio de Varsóvia com a família para o Rio. Ainda se chamava Basza Ajs, nome de batismo que foi substituído por conselho do pai. "Sou Berta e pronto, nem me lembro mais de Basza."

Alfaiate e ator, o pai de Berta, ao contrário da maioria dos chefes de família daqueles tempos, incentivava a veia artística dos filhos. "Mas o teatro para ele era o drama, então no começo ele não gostava muito do que eu fazia. Ele gostava mesmo da minha irmã Bella, que era uma daquelas atrizes bem dramáticas", lembra Berta, sem mágoa aparente, coisa de gente realizada. "Só posso mesmo ser realizada, não é mesmo? A profissão é maravilhosa! E atuar é um vício", resume.

O dom para o humor que demonstrava ter desde criança, acompanhou Berta por toda a carreira que, é verdade, teve aventuras pontuais pelo drama. Mas ela sabe que sempre será lembrada por papéis como o da rainha Efigênia que, já se espera, não devem mais faltar. "Tive uma grande alegria há uns três dias. Encontrei o (diretor-geral) Ricardo Waddington e ele me disse ‘Você não vai mais fazer programa de humor, vai fazer novela! Se prepara para a próxima!’. Ah, isso é mel no meu coração! Ele a Amora (Mautner, diretora) gostam muito de mim", diz ela, como se fosse possível não gostar.

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