Elas querem os chefs underground

Repórteres descobrem fervilhante culinária semiclandestina, improvisada na noite das ruas e terminais de táxi

Giovanna Tucci, de O Estado de S. Paulo,

06 Fevereiro 2008 | 19h09

Um dia, Janete de Moraes, brasileira de Goiânia, resolveu vender pão de queijo e outros salgados em um terminal da empresa Yellow Cab em São Francisco, EUA, onde vive com o marido, motorista de táxi, e a filha. A iniciativa improvisada rendeu mais do que bons trocados no fim do mês. "Depois de conhecê-la, pensamos: ‘Quantas Janetes não existem por aí, com suas cozinhas escondidas?’", contam Davia Nelson e Nikki Silva, as radialistas que criaram, em 2005, inspiradas em Janete, a série Hidden Kitchens, hoje um dos programas mais ouvidos da rádio pública americana NPR.   Veja também: Ouça programa 'Janete's Brazilian Cabyard Kitchen'    Um fato curioso levou as kitchen sisters, como são chamadas Davia e Nikki, até Janete: a grande quantidade de taxistas goianienses em São Francisco. "Como eu não gosto de dirigir, nós duas sempre andamos de táxi e adoramos conversar com os motoristas. Quisemos saber mais sobre os motivos pelos quais tantos goianienses tinham vindo parar ali. Conversa vai, conversa vem, eles nos contaram sobre Janete, a mulher que cozinhava para eles toda madrugada", explica Davia.   Depois de descobrirem Janete, as duas foram à caça de outras "cozinhas secretas" - e cozinhas secretas vieram atrás delas. "Nós disponibilizamos uma linha telefônica para que as pessoas ligassem compartilhando suas idéias, e funcionou. Foi assim, por exemplo, que encontramos Robert King Wilkerson", diz Davia. Wilkerson é um vendedor de balas do Texas com uma história peculiar: aprendeu a fazê-las durante os 29 anos em que ficou na prisão. Para passar o tempo, fazia balas misturando leite, açúcar e manteiga e as distribuía aos presos condenados à morte, pouco antes de serem executados.   O "causo" preferido das sisters - "é tão difícil, mas podemos dizer que sim, esse é o número 1 da lista" - é aquele que recebeu o nome de An Unexpected Kitchen: The George Foreman Grill (uma cozinha inesperada: o grill George Foreman). Em Chicago, moradores de rua, entre eles muitos imigrantes, cozinham, embaixo de viadutos, em aparelhos de grelhar da marca George Foreman Grill. Na falta de tomadas, eles fazem ligações clandestinas em postes de eletricidade. "Quando descobrimos isso, fomos atrás do criador do produto, o (ex-pugilista) George Forman. Ele ficou muito emocionado. O caso fez com que lembrasse de sua infância pobre."   Há ainda os programas sobre Georgia Gilmore, a mulher que preparava quitutes para o ativista Martin Luther King e seus seguidores em um restaurante secreto; o ritual de preparo do burgoo, um prato de carne cozida com vegetais, em Owensboro, Kentucky; e a colheita de um arroz com sabor de nozes na reserva indígena de Ojibwe, em Minnesota. "São muitos casos (27 estão disponíveis no site oficial das sisters), e amamos cada um por razões diferentes", diz Davia. Os programas exigem cerca de 30 horas de gravações para se obter 10 minutos.   As repórteres têm um interesse especial pelo Brasil e já fizeram documentários para rádio sobre três personalidades brasileiras: os escritores Jorge Amado e Clarice Lispector e a cantora Carmen Miranda. Por isso, já visitaram algumas vezes o País. "O Brasil tem tido um papel importante em minha vida", foi uma das primeiras frases de Davia quando conversou, por telefone, com a repórter do Paladar. "Fui aí fazer esses três documentários e um filme e...por amor. Arrumei um namorado brasileiro", revelou Davia, desatando a falar que adora "vatapá, caruru, moqueca, feijoada e sorvete de jabuticaba". Que tal fazer então uma edição brasileira de Hidden Kitchens? "E por quê não? Talvez seus leitores possam nos ajudar com isso!" O desafio está lançado. (kitchensisters.org)

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