Ele é o Brasil na copa do café

No dia da abertura da Copa do Mundo no Maracanã o carioca Léo Moço espera não poder ver o jogo: quer estar na final do campeonato mundial de baristas em Rimini, Itália, onde vai enfrentar 54 oponentes de outros países

JOSÉ ORENSTEIN, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2014 | 02h08

O Brasil está ansioso com a Copa do Mundo de futebol que se aproxima. Mas um brasileiro ao menos, no dia da estreia da seleção em São Paulo, 12 de junho, terá, espera-se, outras preocupações: compactar de forma impecável o pó que vai no porta-filtro, regular com precisão a pressão de extração do expresso, apresentar com graça as nuances do café brasileiro.

O carioca Léo Moço é o representante brasileiro no Campeonato Mundial de Baristas, que se realiza entre 9 e 12 de junho em Rimini, na Itália. Campeão brasileiro da arte de preparar e servir um café, no ano passado, ele vive agora a expectativa de representar o País contra 54 outros baristas de todo o mundo.

Em 15 minutos, terá de preparar quatro expressos, quatro cappuccinos e quatro drinques para jurados que Léo, e os outros baristas, só saberão quem são na hora. Criatividade, limpeza, técnica e simpatia - além da qualidade do café- são avaliados. Os jurados podem ficar em pé, de prancheta na mão, tomando nota dos movimentos dos baristas. Uma pitada de pó de café que escape e caia na mesa pode significar pontos a menos.

Um vídeo com mais de 107 mil visualizações no YouTube mostra o campeão do ano passado, o americano Pete Licata, manejando máquinas, pós e xícaras ao som de Billie Jean, de Michael Jackson (os baristas escolhem a própria trilha sonora), rodeado de jurados, fotógrafos e uma plateia cheia - e tendo os gestos comentados pelos narradores da transmissão.

Enquanto prepara as bebidas, o barista deve conversar com os jurados. Léo está com o discurso já decorado (diz ter treinado a apresentação, em inglês, mais de 50 vezes). Ele quer mostrar que o café brasileiro pode ser muito mais complexo do que a maioria supõe, se baristas e produtores trabalharem juntos.

No mundo, o café brasileiro é reconhecido como bom, mas geralmente é visto como básico: serve para compor misturas com outros pós, atrai mais pela quantidade que pela qualidade. "Acho que os jurados vão se surpreender", diz Léo, sobre os grãos que levará para a Itália.

Para os expressos vai usar um café mineiro, de Paraisópolis, do produtor Paulo Almeida. Trata-se de um grão orgânico, fermentado com a casca. "Fiquei arrepiado, chorei mesmo quando conheci esse café. Quero que os jurados sintam um pouco isso", diz.

Para os cappuccinos e para os drinques vai usar um café do sertão de Pernambuco, de uma variedade antiga, cultivado à sombra - em meio a uma agrofloresta - e fermentado em água por 48 e 72 horas. O drinque, no caso, será uma mistura desses cafés de longa fermentação servidos gelados, como um vinho.

"Chegamos a algo parecido em complexidade com o que se tem na Colômbia, na África, na América Central", diz, orgulhoso, o barista. Tanto o grão mineiro como o pernambucano que escolheu são "densos": mais bojudos, guardam mais nutrientes que, depois de fermentados, torrados e moídos, aportam mais açúcar e uma acidez intensa, mas controlada, ao café na xícara.

O expresso provado pelo Paladar, na semana passada, antes do embarque de Léo rumo à Itália, era de fato encorpado, muito frutado, quase um licor.

Até hoje, a melhor colocação de um brasileiro no evento, que ocorre desde 2000, e desde 2002 tem um representante do País, foi o 6º lugar, em 2007, com Silvia Magalhães.

Na segunda-feira, os 55 baristas se apresentam. Desses, 12 passam à semifinal. A grande final, com seis concorrentes, será dia 12. Enquanto Neymar estiver correndo pelos gramados do Itaquerão, Léo Moço espera estar fazendo um cafezinho.

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