''Ele era doce, não tinha arrogância nenhuma''

Miguel Gonçalves Mendes, cineasta

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2010 | 00h00

José e Pilar. Simples assim é o título do documentário do diretor português Miguel Gonçalves Mendes, que registra o cotidiano do casal José Saramago e Pilar del Rio, sua companheira. O filme foi coproduzido pela 02, empresa de Fernando Meirelles, diretor que adaptou para a tela Ensaio sobre a Cegueira, talvez a obra mais conhecida do escritor. Como disse Meirelles ao Estado, o filme deve ter sua primeira sessão brasileira durante a Mostra de Cinema de São Paulo, que se realiza em novembro. Em Portugal, tinha estreia prevista para 16 de novembro, data do aniversário de Saramago. Abaixo, a entrevista com o diretor Miguel Mendes.

Como surgiu a ideia de realizar esse filme e quanto tempo levou para ser rodado e concluído?

A primeira vez que conheci pessoalmente o José foi quando lhe pedi que gravasse um excerto em off do Memorial do Convento para o meu primeiro filme D. Nieves, que se trata de uma dissertação sobre a relação Portugal-Galícia e a palavra Saudade. Mais tarde, propus-lhe este filme. Primeiro ele disse-me que não, mas fui insistindo, e finalmente aceitou. José Saramago era uma pessoa excepcional, que sempre quis conhecer, e considerava inaceitável que não existisse nenhum registro sobre ele, existem vários filmes, mas não numa perspectiva pessoal. Nunca sequer é abordado o papel de Pilar, a sua mulher, na carreira do José. São antes filmes sobre "o homem e a obra", o que não me interessa particularmente trabalhar porque existirão outros suportes mais adequados para dissertar sobre o assunto e pessoas mais competentes para o fazer. A obra existe e pode ser interpretada. O que não possuímos, isso sim, é um registro pessoal do homem. E é sobretudo por esta razão e para atingir esta proximidade que estivemos por três anos a rodar o filme. Acompanhei-os pelo mundo nas suas viagens de trabalho e no seu dia a dia em Lanzarote. O que basicamente culmina em 200 horas de material e um quebra-cabeças para resolver.

Como foi filmar com o casal?

É talvez necessário esclarecer um ponto: este filme é sobre o amor que se estabeleceu entre José Saramago e Pilar Del Rio. Este filme não é só sobre José Saramago. Quero sobretudo que as pessoas os vejam como eu os vejo e partilhar com todos e de uma forma condensada o saber que eles possuem. Qual a sua visão do mundo e em que é que acreditam. No fundo quero que quem assista a este filme sinta que conheceu de uma forma muito íntima essas duas pessoas, que são brilhantes. Algumas pessoas dizem que José era um incendiário. Mas Saramago não era incendiário. Era simplesmente lúcido. E tenta dentro do possível melhorar o mundo por meio do do impacto que as suas opiniões podem ter naqueles que as ouvem. E ao contrario da arrogância que algumas pessoas afirmam ele sofrer, o José era de uma doçura e simpatia incríveis. Para não falar no seu sentido de humor, que era brilhante. Mas, como ele dizia, ele não tinha culpa da cara que tinha. E muitas vezes as pessoas têm a tendência de confundir timidez com arrogância.

Quais os momentos mais significativos durante a filmagem?

Levamos 3 anos para rodar todo o material. O filme centra-se sobretudo em Lanzarote, onde viveram juntos, o centro da sua intimidade. Mas como pretende ser um retrato fiel das suas vidas, o peso da sua agenda profissional era enorme, e por isso os seguimos em várias das suas viagens. Fomos ao México e à Finlândia. Éramos para ter ido com eles ao Brasil assistir à rodagem da adaptação do Ensaio sobre a Cegueira. Mas não conseguimos apoio. Mas dos momentos que posso destacar, contam-se os ensaios entre o José e o ator Gael García Bernal para a estreia da leitura a duas vozes das "intermitências da morte", o casamento do Jose e da Pilar em junho passado em Castril, Espanha, o momento em que o Fernando veio mostrar ao José em Lisboa o Ensaio Sobre a Cegueira. É obvio que um dos momentos que nos afetou a todos foi quando o José adoeceu, mas o mais bonito foi sem dúvida a total recuperação e a força de vida que ele possuiu. Mas um dos momentos mágicos foi estarmos em Lanzarote quando o José estava a acabar e a decidir o final de A Viagem do Elefante.

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