'ELE NOS ENSINA MAIS DO QUE NÓS A ELE'

A gerente de RH Patrícia*, de 40 anos, sempre quis ter filhos, mas tinha dificuldades para engravidar. Perdeu dois bebês nos primeiros meses de gestação e, por isso, entrou na fila de adoção. Antes, porém, teve de convencer o marido.

O Estado de S.Paulo

13 Maio 2012 | 03h07

"Teve todo um processo de aceitação por parte dele. Frequentamos grupos de adoção e conversamos muito até chegar nessa decisão", diz Patrícia.

O casal se cadastrou na fila de adoção e fez as exigências que a maioria faz: queria um bebê branco, saudável, o mais novo possível. Mesmo com as exigências, o casal recebeu consultas sobre adotar crianças com alguma deficiência, mas não quis. Três anos depois, adotaram Guilherme*, o primeiro filho, saudável.

"Quando ele chegou, com apenas 9 meses, meu marido se apaixonou. Eu estava pronta para ser mãe e ele, para ser pai", diz.

Um ano depois, porém, o casal decidiu que Guilherme teria um irmão. Patrícia e o marido voltaram a se candidatar, desta vez sem restrições. A única exigência é que queriam uma criança mais nova do que Guilherme.

Assim, o processo correu mais rápido. O casal recebeu uma ligação em que ofereciam Eduardo*: um bebê de 11 meses, portador do vírus HIV. O casal foi ao fórum conhecê-lo, o marido de Patrícia mais uma vez se apaixonou, mas eles não o levaram para casa porque outra pessoa disputava a guarda da criança.

Dois meses depois, o marido de Patrícia sonhou com Eduardo. Ele tinha de adotá-lo. O casal ligou no fórum para ver se o bebê ainda estava disponível. Estava. O processo estava parado porque o bebê fora internado.

"Meu marido falou: 'Nosso filho está sozinho, internado, sem ninguém para cuidar dele. Vamos buscá-lo'", contou Patrícia.

Sem pensar duas vezes, o casal correu para o fórum e deu entrada na papelada pedindo a guarda de Eduardo, mesmo sabendo que ele estava com a saúde debilitada. "Se pudéssemos dar um dia de vida em família para essa criança já estava bom", diz.

Patrícia e o marido enfrentaram resistência dos familiares, que achavam que a adoção de uma criança doente ia expor o outro filho deles a uma possível "perda precoce". No primeiro ano pós-adoção, Eduardo foi internado com frequência e teve de receber sangue oito vezes.

Hoje, aos 6 anos, o garoto toma três comprimidos a cada 12 horas e faz acompanhamento de quatro em quatro meses. "Era para ser. Ele nos ensina muito mais do que nós a ele", diz Patrícia, que pensa em adotar uma menina.

*Os nomes foram trocados

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