Ele trocou TV por rádio. E se deu bem

Tuta refaz em livro a trajetória da família, da criação da Record à Jovem Pan atual

Cristina Padiglione, O Estadao de S.Paulo

21 de setembro de 2009 | 00h00

Caçula dos três filhos de Paulo Machado de Carvalho (morto em 1992), Antonio Augusto Amaral de Carvalho, o Tuta, sempre insistiu para que o pai, importante dirigente esportivo, fundador de três rádios e, em 1953, da TV Record, registrasse suas memórias. Nunca conseguiu convencê-lo. Agora, 78 anos de vida e 60 de profissão feitos, o dono e idealizador da Rádio Jovem Pan resolveu ceder aos apelos dos herdeiros, que lhe cobram o mesmo legado. Hoje, Tuta autografa o livro Ninguém Faz Sucesso Sozinho (Ed. Escrituras, R$ 90,00), com prefácio de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. O texto final é de José Nêumanne Pinto, chefe dos editorialistas do Jornal da Tarde, que transpôs para o papel ("com mais charme", avisa Tuta) um longo depoimento gravado por ele em 2007.

Em 432 páginas recheadas de fotos, fac-símiles de jornais e cartazes antigos, mais depoimentos de familiares e profissionais que há décadas acompanham A.A.A. de Carvalho, o leitor há de conhecer episódios de bastidores sobre futebol e histórias da lendária Equipe A (que Tuta integrava com o hoje novelista Manoel Carlos, o diretor Nilton Travesso e Raul Duarte, após o incêndio que minou as instalações originais da sede da Record no Aeroporto).

Foi da Equipe A que saíram programas até hoje usados como referência na criação televisiva, como Família Trapo (com Jô Soares e Ronald Golias), Jovem Guarda (com Roberto e Erasmo Carlos), O Fino da Bossa, (com Elis Regina e Jair Rodrigues), entre outros.

Avesso a microfones, holofotes e tudo o que possa movê-lo dos bastidores, Tuta conversou com o Estado num dos estúdios da Rádio Jovem Pan, por mais de uma hora, na última semana.

Quando o senhor começou o livro?

Em 2007. Depois a gente quer fazer o som, mas não audiobook. O Joseval (Peixoto, jornalista da Jovem Pan) fará a ligação com o que eu conto no livro, e aí entra, por exemplo, um áudio original do Getúlio Vargas falando. Ao falar de Copa, vamos botar (a narração) de gols e comentários da época.

Dos episódios relatados no livro, o que doeu relembrar?

Coisas chatas: Silvio Santos (que chegou a ser sócio dos Machado de Carvalho na Record), Milton Neves (ex-Jovem Pan) e o problema com o Di Gênio e a televisão (TV Jovem Pan UHF, canal 16, fundada por ele e João Carlos Di Gênio). Essa da televisão é terrível, porque frustrou um negócio que a gente estava preparando para dar um show. Aí ele começou a pegar no pé, falar que estava superfaturando, cobrando mais do que o normal, e não dava para continuar com um sócio assim.

Até quando o senhor esteve envolvido com a Record?

Fiquei até 1973. Mas tem uma porção de histórias que não contei no livro, como a do Frank Sinatra do 1º de abril. O fulano era igual ao Sinatra e o trouxemos para uma chácara que a gente tinha do lado da TV. Na hora do ensaio, baixaram a luz, ele entrou no cenário e cantou. A orquestra achou que era o Sinatra! A gente revelou (a farsa) logo depois do programa.

Dizem que quando o videoteipe chegou ao Brasil, o pessoal de TV ficou tão animado com o custo-benefício de gravar uma coisa em cima da outra, que nem se deu conta de estar apagando um acervo.

Mas foi obrigado a apagar, as fitas eram muito caras. Eu que tive que apagar na Record. Tinha 60, 70 programas da Família Trapo, O Fino da Bossa...

Quer dizer, não foi o incêndio que engoliu tudo, muita coisa foi apagada mesmo, como os gols do Pelé?

Não, os gols do Pelé não, isso foi embora no incêndio mesmo. Depois do incêndio é que foi a fase boa da Record. O incêndio abriu a chance de começar de novo. Não foi uma escolha fazer musicais, nada disso, foi necessidade: "A Elis fez sucesso? Pô, vamos tentar contratar a Elis". Era assim que funcionava.

A Família Trapo também nasceu da necessidade de refazer a casa após o incêndio, não?

Foi minha ideia, seguindo a Lucy (I Love Lucy) e seriados americanos que retratavam a família. Nesse tempo a gente já era a Equipe A, e aí discutimos quem poderia estar no elenco. Depois pensamos: quem vai escrever? Fomos no Jô (Soares) e no Carlos Alberto de Nóbrega.

E agora, o que falta fazer?

Fazer outro livro (risos). Não tem nada que eu quisesse fazer e não fiz. A própria vinda para a rádio: a televisão é muito mais completa, mas no rádio você joga com a imaginação. O SBT já me procurou para pegar o Jornal da Manhã e jogar na TV. Não quero. Isso é um bom jornal para rádio, o sujeito está de camisa esporte, está à vontade, não tem nada a ver. Quer fazer o Jornal da Manhã na TV? Vamos fazer um outro jornal. E essa briga minha já é com os filhos, que o Tutinha fez lá o Pânico, que deu certo na TV (RedeTV!), mas eu digo: "isso é um humorístico, aqui a coisa é séria".

E plano de fazer radiojornalismo no circuito FM, não tem?

É que o FM é mais privilegiado de som que o AM, mas isso eu devia ter pensado há 20 anos. Agora, aparecer uma oportunidade é difícil por causa das igrejas. A igreja paga 200 mil por mês para ter um canal desses. O cara que aluga faz um grande negócio, ele recebe limpinho, não tem dor de cabeça, nada. Agora, vale 200 mil? Não vale de jeito nenhum! Não dá para comparar com a gente. Antigamente, uma rádio custava US$ 2 ou 3 milhões, agora custa 10, 15, 20 milhões de dólares. Sabe quando eu tiro esse dinheiro? Nunca na vida.

Serviço

Ninguém Faz Sucesso Sozinho: A. A. A. de Carvalho - Tuta. Organização José Nêumanne Pinto. Escrituras Editora. 432 págs., R$ 90. Saraiva Megastore Higienópolis. Avenida Higienópolis, 618, telefone 3662-3060. Hoje, às 18 horas

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.