Elegia para uma Grécia antiga

Na crise, os gregos foram transformados em vilões preguiçosos que só veem a Europa como um grande caixa eletrônico

02 de outubro de 2011 | 09h52

Meu tio Thanassis tem 81 anos. Na sua longa existência, passou por todas as crises de identidade gregas desde a 2ª Guerra: a amargura que dividiu e empobreceu o país depois da sangrenta guerra civil de 1946 a 1949 entre comunistas e conservadores; os dolorosos anos do pós-guerra que levaram seus amigos a buscar trabalho na Austrália e nos Estados Unidos; a junta militar de 1967–1974, que asfixiou a liberdade de expressão e proibiu a livre movimentação dos gregos; a ascensão, nos anos 80, do socialismo populista promovido pelo ex-premiê Andreas Papandreou, um inconstante economista formado em Harvard; os bons anos da década de 90, quando parecia que até os donos das lojas de souvlaki (o churrasquinho chamado justamente grego) de Atenas ganhavam bastante dinheiro para comprar Alfa-Romeos zero quilômetro e casas de veraneio nas ilhas; a europeização da última década, quando o espresso freddo substituiu a tradicional bebida doce e grossa servida nos cafés e um homem de cabelos brancos e terno dançando ao som choroso da clarineta parecia definitivamente fora de lugar.

 

Durante todos esses anos, meu tio continuou convencido de que ser grego era uma dádiva. "Os gregos fazem as pessoas se sentirem felizes", costumava dizer, com os olhos brilhando. "Nós ensinamos as pessoas a viver o momento, a apreciar o perfume dos limões e do jasmim no verão, a dançar em vez de chorar quando os problemas da vida se tornam excessivos. O que quer que haja de errado neste país, foi sempre assim."

 

Mas as coisas não são mais assim. Quando uma tarde, recentemente, fui tomar um café em sua casinha num bairro populoso de Atenas, seus olhos já não brilhavam. Como muitos gregos, meu tio paga impostos elevados e tarifas de serviços públicos mais altas com sua minguada aposentadoria. Está muito triste ao ver o seu bairro, outrora acolhedor, onde viveu durante 50 anos, tornar-se um labirinto decrépito cheio de lojas vazias e paredes cobertas de pichações. No anoitecer, a rua principal onde ele compra seu queijo feta e salame italiano está repleta de tristonhas prostitutas nigerianas da idade de sua neta adolescente. Há algumas semanas, quando voltava a pé depois de perambular a metade de um dia até uma mercearia, parou para conversar com um jovem casal grego que dizia estar perdido. Ao chegar em casa, percebeu que os dois tinham roubado todo seu dinheiro. "Mas será que chegamos a este ponto?", ele disse, amargurado como nunca o vi. "Roubar as pessoas em plena luz do dia e fingindo a amizade que nos tornou o que somos?" Ele tomou o café, ligou a TV para ouvir o noticiário e uma reportagem da BBC falou da economia grega que está arruinando o mundo. "Talvez eles tenham razão", suspirou. "Talvez estejamos mesmo arruinando o mundo."

 

Antes da grande crise da dívida de 2010, o mundo conhecia os gregos como gente extrovertida, falante, amante do divertimento, com horários que não mereciam a menor confiança e um bronzeado lindo. Nas encarnações de Zorba, o Grego ou O meu Grande e Gordo Casamento Grego, eles viviam à sombra do passado antigo, mas ainda conseguiam absorver a espontaneidade do presente. O mundo amava os gregos não apenas por causa de Péricles, Hércules e a Acrópole, mas pelas tabernas, as praias e as avós carinhosas que preparavam doces de nozes com calda de açúcar e raki (licor de uva com sabor de anis) feito em casa. Até os chamados kamakia, ou "arpões", como são chamados – os homens morenos de camisa aberta no peito e inglês de novela, notórios especialistas em passar a conversa em jovens turistas loiras e levá-las para a cama – tinham um lugar especial nos corações de muitas mulheres do norte da Europa.

 

Mas hoje ninguém gosta dos novos gregos pós-crise da dívida. Agora eles são conhecidos como crianças irresponsáveis, esbanjadores, sonegadores, que sugam o Estado e veem a União Europeia como um gigantesco caixa eletrônico. Esses são os gregos que estão acabando com a economia global e jogando coquetéis molotov no Parlamento. A crise da dívida provocada pelos gregos revelou profundas rachaduras na coesão da União Europeia, que já se apoiava em terreno instável. Os europeus perderam a fé no euro; alguns deles propuseram simplesmente cortar a Grécia como um câncer numa tentativa equivocada de salvar a própria pele. Uma pesquisa recente mostrou que metade dos austríacos acha que os gregos deveriam sair da zona do euro, embora a maioria dos analistas concorde que essa medida na realidade afetaria os outros países. O chanceler austríaco, Werner Faymann, afirmou meses atrás que o produto interno bruto (PIB) da Áustria encolheria 5% se a Grécia saísse. No entanto, Ilias Diamantidis, um oftalmologista de 33 anos de Augsburg, na Alemanha, conta que seus pacientes fazem longos sermões para ele sobre esse novo comportamento irresponsável e devasso. Diamantidis, que é originário da cidade de Tessalonica, no norte da Grécia, diz que nunca sabe o que responder. "Eles estão certos em criticar a maneira como nós, como país, tratamos nossas finanças", afirma. "Mas isso não define totalmente a nossa maneira de ser."

 

Seu amigo de infância Nicholas Ventouris, economista formado em Londres, não é tão generoso. "Os gregos toleraram por tanto tempo um sistema político corrupto que esta sociedade também se tornou corrupta", afirma. Ventouris diz que ser grego significa sentir-se sufocado – principalmente quando a pessoa é jovem, instruída, com grandes sonhos. Ele se sente particularmente decepcionado com a anarquia natural da cultura que celebra o mangas – sujeito que tem talento para burlar o sistema – que ri dos babacas que pagam impostos. Diamantidis diz que é a filosofia da sobrevivência. Do jeito que a Grécia atualmente funciona, com sua economia fechada, clientelista e políticos nojentos, a gente precisa infringir as regras para conseguir um bom tratamento de saúde, construir uma casa ou conseguir um emprego e até uma carteira de motorista. "Há muito tempo esse é o preço que é preciso pagar se se quiser viver neste maravilhoso país", diz ele.

 

O premiê George Papandreou afirmou inúmeras vezes que a Grécia precisa mudar essa cultura para sobreviver num futuro competitivo. A crise da dívida provocou um rápido processo de reformas como a privatização de ativos estatais, o combate à crescente sonegação de impostos e o desmantelamento de um setor público inchado – mudanças que deveriam ter sido adotadas anos atrás. "Prometo a vocês que nós gregos encontraremos o caminho de volta para o crescimento e a prosperidade depois deste período doloroso", declarou a líderes da indústria alemã em Berlim, na terça-feira.

 

A tranquila determinação de Papandreou fez com que ele conquistasse muitos fãs no exterior. O premiê de 59 anos, nascido em St. Paul, Minnesota, estudou nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, fala inglês com sotaque do centro-oeste americano e parece tão à vontade em Berlim quanto em Atenas. Mas esse ar cosmopolita nunca lhe valeu muito em seu país. Muitos gregos lamentam que ele não seja suficientemente grego, embora pertença a uma dinastia política lendária (seu avó e seu pai foram primeiros-ministros). Nos comícios, os manifestantes levantam cartazes pintados à mão com Papandreou enrolado na bandeira americana ou como um óvni. A ira do povo contra ele e seu governo cresceu com as novas medidas de austeridade, que incluem cortes das aposentadorias e um novo e controvertido imposto predial que o Parlamento aprovou terça-feira.

 

Embora eu tenha nascido em Atenas, cresci em Dakota e em Minnesota e gosto da personalidade ponderada de Papandreou. Frequentemente critiquei a maioria dos gregos como impulsivos e insuportavelmente fatalistas, mas é injusto e inverídico descrevê-los como preguiçosos e petulantes e considerá-los os únicos culpados por uma crise econômica que é muito maior que este pequeno país de 11 milhões de habitantes. Meus pais deixaram a Grécia em 1974, mas meu pai particularmente levou muito a sério sua identidade grega. Costumava ler os poemas de Cavafy e Seferis aos seus amigos no Elks Club de Williston, em Dakota do Norte, e muitas vezes os maravilhou com as histórias da sua infância em uma remota aldeia do Peloponeso. Falava das grandes montanhas peladas e do frio mar azul, das cabras de que ele cuidava e das azeitonas que ajudava a colher, das vizinhas ruínas de Messene, cidade-estado dórica fundada por Epaminondas, que séculos de sol tornaram de uma cor branca perolada. Ele me mandou para a faculdade com um livro de poesias de Odysseas Elytis. Há uns versos de Elytis que volto a ler e reler sempre que me sinto desorientada: "Meu céu é profundo e imutável/Tudo que amo renasce sem cessar/Tudo que amo sempre recomeça".

 

A Grécia mudou, e não mudou, desde que meu pai e seu irmão mais velho – meu tio Thanassis – nasceram. Não é mais o país empobrecido onde muitos gregos morriam de doenças que poderiam ser curadas, como meus avós paternos na década de 30. Esta terra selvagem, agrícola, arada por burrinhos, transformou-se numa meca de turistas endinheirados em busca de sol e mar que se presta a todos os serviços. Metade da população agora vive em Atenas, a capital, outrora uma cidade de província que agora é um caos asfixiante, efervescente, de blocos de apartamentos de concreto e ruínas antigas, restaurantes que constam no Guia Michelin e ruidosos clubes de bouzouki (violão grego), palacetes nos subúrbios e guetos no centro da cidade. Agora o país tem cerca de 1 milhão de imigrantes, muitos provenientes da África e do Sul da Ásia, e seus filhos nascidos na Grécia, que falam grego, deram origem a uma crise de identidade no que diz respeito ao que significa "ser grego".

Mas o céu da Grécia continua, sob muitos aspectos, profundo e imutável. Os gregos permaneceram aferrados a seu passado distante, e às vezes, conseguem viver o presente de maneira muito visceral, mas nunca encararam com alegria o futuro. Agora o futuro é tão sombrio que ninguém quer pensar nele. As reformas e as medidas de austeridade permitiram que a Grécia recebesse um pacote de ajuda internacional para impedir que recorresse imediatamente à moratória, mas essas medidas também acabam estrangulando a economia. A recessão agora está no seu terceiro ano, e o desemprego supera os 16%. Houve um aumento do número de sem-teto, do crime e das falências pessoais. O de suicídios dobrou em relação ao período antes da crise da dívida, segundo um relatório do Wall Street Journal com dados do Ministério da Saúde da Grécia e da organização sem fins lucrativos Klimaka. "Não podemos nem mesmo nos sentir mais felizes", diz meu tio Thanassis.

 

Meu pai morreu em 1989, perto de completar 52 anos. Era um homem quieto, estudioso, que sempre pareceu fora de lugar nas pradarias de Dakota do Norte, falando seu inglês musical com sotaque do Peloponeso com os proprietários do posto de gasolina de mais de 2 metros de altura, que mascavam tabaco e respondiam com vogais amplas e monótonas. Ele nadava com elegância no mar perto da aldeia. Levou toda a família para lá numas férias de verão, quando eu tinha 9 anos; lembro como parecia feliz de estar em casa, com a brisa salgada e as pequenas baías escondidas. Meu tio Thanassis estava lá também. Ele e meu pai riam nadando e eu os seguia, desesperada para participar da sua alegria. Meu tio ainda lembra daquele dia sempre que o noticiário sombrio ou os atenienses deprimidos parecem muito difíceis de suportar. Seus olhos sempre se umedecem. É o que para ele significa ser grego, enquanto vê o seu país se destroçar mais uma vez; para ele, isso é tudo que resta. (TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA)

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