'Eles acham que podem jogar nomes na sarjeta'

Para reitor, título de persona non grata dado pela Faculdade de Direito é parte do choque entre o novo e o antigo na USP

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2011 | 03h02

Há uma semana, diretores de todas as unidades da USP assinaram texto de desagravo ao sr., pelo fato de ter sido declarado persona non grata pela Congregação da Faculdade de Direito. Com o sr. viu essa mobilização?

Não tive participação, mas duas coisas me chamaram a atenção: os termos severos e a unanimidade. Acho que isso se deve ao ineditismo (da declaração) e à própria discussão da competência que uma unidade tem para outorgar títulos negativos, já que há regras na USP para conceder títulos. O reitor hoje sou eu, mas não serei amanhã. É algo que precisa ser preservado, não achincalhado como foi.

O título o surpreendeu?

Sim. Naquele dia, a congregação se reuniu em última convocação (com qualquer quórum, portanto), às 15h30. E começou com a leitura de um documento de 20 páginas, que tomou um tempo razoável. Toda reunião tem uma pauta. E na pauta não havia referência a mim. A questão específica aparece às 17h30, quando um professor faz a proposta da concessão do título. É comum que a partir das 17 horas professores se ausentem, porque há cursos de pós que começam às 17h15. A concessão do título foi proposta, e isso é comprovável por pessoas que lá estiveram, quando a congregação já estava esvaziada. Houve relatórios verbais, não foi nomeado relator, como de praxe. O assunto foi encerrado e se desceu para um palco com cartazes já preparados.

Alguns de seus adversários alegam que foi uma resposta a um boletim da reitoria com críticas à gestão da São Francisco, distribuído na porta da faculdade por ordem da reitoria.

Esse boletim tinha uma razão clara. A faculdade estava toda coberta de cartazes sobre uma aula que seria dada sobre "moralidade administrativa" no dia 21, mencionando a reitoria. Pelos cartazes, a aula era para dizer: "O antigo diretor não está fazendo nada aqui e isso configura imoralidade administrativa". O boletim visava a fazer com que alunos que entraram nos últimos dois anos soubessem da realidade. Tinha documentos, sem ataques pessoais.

Não fica aí uma brecha para se dizer que foi usado dinheiro da USP numa crítica pública da reitoria a uma unidade?

Quando a pessoa não consegue atacar o assunto, ataca a forma. É um direito. Assim como centros acadêmicos, sindicatos de servidores e a associação de professores têm boletins, a universidade fez o dela.

Mas foi distribuído na porta?

Foi. Faz-se e não se distribui? É a velha história: querem te dar um tapa, mas não querem que você ponha a mão na frente para se defender. Não são gastos especiais. É direito de defesa. Havia um caldo político na discussão que ia ser feita: a Geni (da música de Chico Buarque) seria eu - eu e o reitor, ao mesmo tempo. Você não dissocia isso.

Mas, de qualquer modo, não era usual haver material da reitoria com críticas às unidades.

Isso é importante dizer. Os boletins começaram a ser feitos há um ano, a pedido de todos os diretores da faculdade. Eles disseram que a universidade precisava ter um modo de explicar suas posições.

Antes desse boletim, outro já tinha causado polêmica, sobre o Clube das Arcadas, que nasceu com base no esporte e ganhou adendos comerciais.

Eu acho que essa é a polêmica real. Foi colocada privadamente, num ofício que enviei à Secretaria Estadual de Cultura, parceira da Universidade de São Paulo na mudança do Museu de Arte Contemporânea (MAC) para o Ibirapuera. Isso vazou e fizemos o boletim.

Se posso resumir o boletim, ele dizia que se estava usando o nome da USP para um empreendimento cujas finalidades não estavam muito claras. Mas onde se encaixa o MAC nisso?

Pela proximidade, o povo em geral vai fazer uma ligação. Então, antes de a USP ir para lá, numa joint venture com a secretaria, cabiam algumas perguntas que nasceram pela notícia de que o Clube das Arcadas venderia títulos. A universidade não tinha conhecimento nenhum. Eu tive no passado, como diretor da São Francisco, mas de algo extremamente mais sucinto.

Era algo recreativo, restrito aos alunos?

Era. O projeto final do clube, mal ou bem, usava o nome da USP e pretendia captar R$ 50 milhões da sociedade. Então, era necessário que se dissesse claramente que a USP não tem nada com o empreendimento.

O senhor acha que tem má-fé nesse empreendimento?

Não vejo má-fé. Está mais na linha de um monumento ao ufanismo franciscano.

Em meio às polêmicas, a USP teve destaque em rankings internacionais recentes. O sr. pode falar dessa "agenda positiva"?

Rankings são indicativos. O que é inegável é que nossa posição mudou em 2010 e 2011. Não estou dizendo que não houve um esforço anterior. Houve. Ele foi incrementado agora. Isso se deve ao esforço de muita gente. Se todos tivessem ficado na inércia, não teríamos melhorado. Toda melhora passa por modernização de ideias, abertura. Mudança não se faz de forma tranquila. Certas coisas lamentáveis fazem parte do choque entre antigo e novo - algo que não tem nada a ver com idade.

O sr. está se referindo à polêmica com a São Francisco? Esse choque está presente?

Não está totalmente fora (do contexto). No momento em que se tiram as placas das salas (de patrocinadores de reformas na São Francisco; mais informações nesta página) e jogam na sarjeta, vemos que não é de hoje que a faculdade tem certos laivos melodramáticos. Eu já falei em terror (numa alusão à Revolução Francesa). Aquilo está se fechando e isso não é positivo. Pegar nomes ilustres e jogar na sarjeta é o mesmo que pegar o nome de um ex-diretor e achar que tem o poder de jogar na sarjeta. Ou seja: tudo que não são eles é a sarjeta. Mas a faculdade começou há quase 200 anos e não se personifica em nenhuma das pessoas que estão lá, muito menos numa minoria.

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