Eles dividem o mesmo sonho: querem 'achocolatar' o mundo

Muitos e-mails depois, americano e baiano põem ‘filho’ hoje no mercado

Cíntia Bertolino,

11 Março 2010 | 09h35

O encontro entre o baiano Diego Badaró e o norte-americano Frederick Schilling foi um acontecimento de ordem quase sobrenatural, como eles contam.   Quando Badaró pegou uma barra de chocolate Dagoba nas mãos pela primeira vez, em 2004, teve um pressentimento: "Naquele dia, tive certeza de que meu caminho se cruzaria com o do cara que fez aquele chocolate", conta o brasileiro.   O americano não foi menos místico. Começou a produzir chocolate e logo depois teve um sonho, no qual prometeu à deusa do chocolate, Xochiquetzal, dedicar sua vida a fazer o melhor doce do mundo e a preservar as florestas de cacau.   Levou a iluminação onírica a sério. Fundou a Dagoba com um investimento de US$ 20 mil e começou a produzir seu chocolate orgânico. O negócio deu tão certo que acabou sendo vendido mais tarde à gigante Hershey’s por US$ 17 milhões.   Os destinos de Badaró e Schilling se cruzaram, enfim, em 2006, na feira do chocolate de Nova York. Diego deixou uma amostra de seu cacau orgânico, produzido na Fazenda Monte Alegre, no estande da Dagoba. Frederick Schilling provou as amêndoas e adorou: "Eram maravilhosas, estava claro que naquele cacau havia muito cuidado e carinho".   Começava ali uma intensa troca de correspondência entre os dois em que o assunto, invariavelmente, girava em torno de "chocolate", "plantar bilhões de árvores de cacau", "salvar os animais nativos" e "cuidar da floresta".   Poucos meses depois, Frederick Schilling desembarcou em Itacaré para conhecer o produtor baiano: "Não tinha a menor ideia de como Diego era. De repente, aparece esse cara com voz de barítono, alto, uma grande aura. Em menos de meio segundo, sabíamos que éramos irmãos", disse Schilling em entrevista, por telefone, ao Paladar, de Ashland, no Oregon (EUA), onde mora.   Diego é integrante da família Badaró, produtora de cacau da região de Ilhéus há cinco gerações - sua família é uma das protagonistas do romance Terras do Sem Fim (1942), de Jorge Amado, livro que narra as disputas de terra entre dois grandes coronéis pelo controle de grandes propriedades cacaueiras.   Badaró até tentou mudar de ramo e formou-se em comércio exterior. Mas, em 2002, "ouviu o chamado do chocolate" e decidiu recuperar as fazendas de cacau da família. Tinha 21 anos e enfrentou a descrença de seus parentes.   Assim como todos os fazendeiros de cacau da região de Ilhéus, a família Badaró sofreu perdas terríveis com a infestação da vassoura-de-bruxa na década de 80. Depois da infestação da praga que dizimou o cacau da região, muitos produtores baianos abandonaram o cultivo.   Recuperar as fazendas e preservar a genética original dos frutos foi uma tarefa árdua. "Os trabalhadores estavam acostumados a misturar os grãos de cacau bons com os ruins", conta Badaró. "E eram resistentes ao manejo orgânico. Mas bastaram os resultados começarem a aparecer para a postura mudar. Muita gente ali, com décadas de experiência no trabalho, nunca tinha visto um cacau de qualidade."   Em 2005, confiante de que tinha um bom produto em mãos, Badaró encheu a mala de amêndoas de cacau e foi ao Salon du Chocolat, em Paris. Conquistou seu cliente mais importante, o renomado François Pralus.   O chocolatier francês abastece vários restaurantes estrelados, entre eles La Maison Troisgros, Guy Savoy, Pierre Gagnaire, Le Petit Nice, Le Grand Véfour, além de fornecer matéria-prima para Pierre Hermé e Ladurée.

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